Vício em compromissadas

Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo (página A2 – 9/11/16)

Vício em compromissadas

Se as OCs não recuarem será difícil retomar a trilha de investimento, produção e emprego 

* Felipe Salto e José Roberto Afonso

09 Novembro 2016 | 05h09

O que são as operações compromissadas (OCs) realizadas pelo Banco Central (BC)? Não é assunto simples, mas é indispensável que seja bem conhecido, pelo forte impacto negativo que produz na economia. Trata-se de uma forma algo disfarçada de dívida pública. Por meio delas, o BC vende e compra títulos federais que estavam em sua carteira para, respectivamente, evitar excesso ou escassez de dinheiro em circulação. O compromisso está em recomprar (ou revender) esses mesmos títulos em data futura.

As OCs são remuneradas pela Selic, taxa fixada pelo BC, que persegue dois objetivos ao determiná-la. O primeiro, de olho na inflação, é regular a quantidade de moeda e crédito que circula na economia, elevando os juros para inibir a alta de preços. O segundo, de olho no mercado, é garantir a remuneração desejada pelas instituições financeiras para o financiamento do déficit público.

Uma contradição entre esses dois objetivos desponta no Brasil. A taxa de juros que o BC julga suficiente para conter a inflação determina diretamente o custo do Tesouro para remunerar os detentores de 46% do total de sua dívida (já em R$ 4,1 trilhões). Cria-se um círculo vicioso em que a meta de inflação condiciona o resultado fiscal, pois uma Selic mais alta produz mais despesas, aumenta o serviço da dívida e aprofunda o déficit fiscal. Na prática, as OCs ditam uma espécie de piso para a taxa de juros e assim asseguram ganhos para os investidores financeiros.

Atualmente o saldo de operações compromissadas ronda a casa de R$ 1,1 trilhão, ou 18% do produto interno bruto (PIB), recorde histórico. Ao final de 2006 eram apenas R$ 77,4 bilhões, ou 3,2% do PIB. Comparando: nos Estados Unidos a mesma operação (repurchase agreements ou “repos”) representa cerca de 1,7% do PIB, um décimo do registrado no Brasil, mesmo depois da crise global.

O aumento de gasto público não explicou o salto das OCs. A justificativa era enxugar o excesso de moeda nacional que entrava no mercado, decorrente da acumulação de reservas internacionais. Contudo, para ilustrar, nos nove primeiros meses desse ano as OCs cresceram em 2,1 pontos do PIB e, na contramão, o ativo externo líquido do Banco Central caiu em 4,3 pontos do produto. A crise faz explodirem as compromissadas enquanto despencam as reservas expressas em moeda local.

Outra razão para tantas OCs: desde 2012 o Tesouro optou por reduzir rapidamente a fatia de títulos (LFTs) com juros atrelados à Selic (não repondo os papéis vincendos, inclusive); o excesso de dinheiro em circulação precisou ser reduzido, o que foi feito pelo BC por meio de OCs. Mesmo com déficits, o Tesouro consegue acumular um caixa monumental (beira o R$ 1 trilhão) em razão do dinheiro recebido do próprio BC. Este remunera com Selic o caixa único lá depositado e também repassa ao Tesouro os ganhos cambiais com a valorização das reservas internacionais (quando o dólar sobe), mesmo que elas não tenham sido vendidas e o lucro não tenha sido realizado. Se o ganho é recebido à vista e em espécie, quando o BC tem prejuízo cambial, o Tesouro cobre com emissão de títulos, que engordam a carteira da autoridade monetária, e assim pode contratar cada vez mais OCs.

Resultado estranho ao que seria uma adequada política monetária: os detentores de dívida atrelada à Selic ganham quando ela sobe, pois ficam com mais recursos para investir ou gastar, na contramão do desejado quando se elevam os juros para combater a inflação. Em países onde o perfil da dívida é normal isso não se observa.

O pecado capital talvez esteja na ausência de um amplo mercado interbancário, no Brasil, para operações de troca de liquidez entre os próprios bancos. Na prática, os bancos não confiam muito nos seus pares e as sobras de caixa no fim do dia são trocadas com o Banco Central por OCs. Em tempos de crise, com crédito retraído, sobra ainda mais para aplicar no BC.

Enquanto as OCs não recuarem, será difícil a economia brasileira retomar a trilha do investimento, da produção e do emprego. A incerteza provoca uma corrida desenfreada para o dinheiro, que na economia moderna é pintado de dívida pública e, no caso brasileiro, ainda mais na forma de OCs. Estas remuneram muito bem, com liquidez, já que podem ser compradas hoje e vendidas amanhã e têm a melhor garantia possível numa economia – o governo e o Banco Central.

Se o dinheiro encontra um porto tão seguro, por que navegar em mares revoltos (com a pior recessão da História) e incertos, por que o trocar por investimento na produção e na infraestrutura ou por exportação? Não existe clareza de que haverá crédito suficiente e taxa de câmbio decente. Aliás, entre janeiro e setembro as OCs cresceram R$ 163 bilhões e a dívida bruta, R$ 402 bilhões. Enquanto isso, pretende-se que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) antecipe R$ 100 bilhões do que deve ao Tesouro, esquecendo que ele próprio mandou o banco emprestar barato e a perder de vista – fora o desrespeito à responsabilidade fiscal e à boa governança corporativa.

Enfim, as OCs funcionam hoje como um termômetro que mede a febre da economia. Não basta mudar o governo e a equipe econômica e aprovar uma única medida para equacionar problemas estruturais e retomar o crescimento. Sem desatar os nós que amarram a política monetária e a fiscal, o investimento produtivo – que gera emprego – continuará a ser preterido em relação à alternativa de deixar o dinheiro no cofre do governo rendendo os mais altos juros do mundo e podendo ser sacado a qualquer momento.

*Respectivamente, economista, assessor parlamentar no Senado, autor do livro ‘Finanças Públicas: da Contabilidade Criativa ao Resgate da Credibilidade’ (Record, 2016); economista, pesquisador do IBRE/FGV e professor do IDP

Juros | Folha | 22-10

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/10/1825286-banco-central-acertou-ao-reduzir-taxa-de-juros-sim.shtml

“Banco Central acertou ao reduzir taxa de juros? SIM”

BOM COMEÇO, MAS QUEDA DEVERIA SER MAIOR

Felipe Salto* – Folha de S. Paulo (pág. A3)

 

O Banco Central tomou coragem e iniciou um ciclo de redução dos juros. A queda foi de 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. A intensidade deveria ter sido maior, mas já é um começo.

Apesar das incertezas, a melhora das expectativas, resultado da atitude decidida do governo Michel Temer na seara fiscal, deu mais força à redução da Selic. Juros menores têm o condão de turbinar o investimento. A dívida das empresas cai e o gasto do governo se retrai. Nessa toada, voltaremos a crescer.

Se a taxa interna de retorno de um projeto de investimento é inferior à remuneração oferecida nos títulos públicos (a Selic), o projeto não sai do papel. Logo, quanto menor a taxa de juros, maior o número de investimentos viáveis economicamente.

O retorno de 10% em uma fábrica de sapatos é muito ou pouco? Depende de quanto eu ganharia colocando esse capital em títulos públicos.

Ao fixar determinado nível de juros, busca-se certo patamar de inflação em um prazo de um ou dois anos, mas sem tirar o olho do lado real: produção, emprego e investimento.

Por exemplo, para o ano que vem, o próprio BC já prevê uma inflação de 4,4%, abaixo do centro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (4,5%). Quanto ao PIB, nunca estivemos tão mal: um tombo, entre 2015 e 2016, de mais de 7%.

Os analistas preveem inflação de 5% para os próximos 12 meses. Desde novembro do ano passado, a expectativa dos agentes econômicos já caiu quase dois pontos e meio.

Isto é, o juro real, variável mais relevante para a decisão de investimento (pois desconta a perda com a inflação), estava subindo até a última quarta-feira (19), mesmo com a Selic inalterada.

O juro brasileiro é uma espécie de jabuticaba. Amarga. Com dívida de 70% do PIB ou R$ 4,3 trilhões, o Brasil paga 8,5% de juros reais. Países com níveis similares de dívida têm taxas de juros reais negativas ou, quando positivas, iguais a 2% ao ano, no máximo.

Os juros brasileiros estão muito acima do nível internacional acrescido do risco país. Isto é, estamos pagando muito mais do que o necessário para cobrir o diferencial de risco para o investidor que tem de decidir colocar dinheiro aqui ou mandar para os Estados Unidos. Isso cria um estímulo para a entrada de dinheiro especulativo no Brasil: entra, ganha o juro e vai embora depois do pernoite.

Marcos Lisboa argumentou nesta Folha que o critério da taxa natural seria o relevante para a decisão sobre os juros. Trata-se do seguinte: observar como está se comportando o consumo (incluindo o governo) e a capacidade de produção e, na presença de pressões excessivas do primeiro sobre a segunda, juros para cima.

Ora, mas se a economia está em depressão profunda, a léguas de distância do seu potencial (o máximo PIB possível dadas a mão de obra, a infraestrutura, a produtividade etc.), esse argumento não para em pé por mais de dois segundos.

Isso não anula a necessidade de ajuste fiscal duro, profundo e abrangente. O Estado precisa ganhar músculos e perder peso para financiar mais e melhores políticas públicas.

Aliás, só como resultado da redução de 0,25 ponto percentual, o setor público deixará de pagar R$ 6,5 bilhões em juros ao setor privado. Do ponto de vista das empresas, menos dívidas e mais investimentos.

O BC tomou a decisão certa, sobretudo diante da perspectiva de equacionamento do buraco das contas públicas com a PEC do teto de gastos. Todavia, é preciso intensificar a redução.

Ao realinhar estruturalmente os juros, combateremos a tendência crônica de valorização artificial do real frente ao dólar e, com isso, desintoxicaremos a indústria e teremos a oportunidade de voltar a crescer e a reduzir a pobreza.

*FELIPE SALTO, economista, mestre em administração pública pela Fundação Getulio Vargas, é coautor do livro “Finanças Públicas: da Contabilidade Criativa ao Resgate da Credibilidade” (Record)

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Slides | FGV | Ajuste fiscal

Vejam os slides utilizados pelos participantes da Mesa Redonda organizada no dia 28 de setembro na FGV/EESP. Em debate, a crise fiscal e o ajuste que precisará ser feito para desatar o nó em que nos metemos.

Acesse aqui – http://eesp.fgv.br/noticias/mesa-redonda-para-alem-do-ajuste-fiscal-uma-agenda-para-o-bicentenario-da-independencia-do-

Nosso livro (1)

Mansueto e eu ficamos muito felizes com o sucesso do evento de lançamento do nosso livro – “Finanças Públicas: da contabilidade criativa ao resgate da credibilidade” – em São Paulo, na Livraria Cultura. Autografamos quase 160 livros na noite da última quinta (11-08).

Na próxima terça (16-08), vamos lançar o livro em Brasília. O evento será na Saraiva do Shopping Pátio Brasil a partir de 19:00.

Estiveram presentes amigos, familiares, políticos, estudantes e professores de economia, jornalistas e interessados no tema. É bom ver que o tema das contas públicas começa a ganhar força. Sem colocar ordem na casa, não haverá retomada consistente do crescimento.

Veja o que está saindo na imprensa sobre nosso trabalho:

1 – O João Villaverde, do Estadão, fez uma excelente resenha sobre o livro. Vejam clicando aqui:

http://economia.estadao.com.br/blogs/joao-villaverde/a-escalada-do-abismo-fiscal/

2 – Também o Valor publicou, no seu caderno de final de semana, resenha escrita pelo jornalista Sérbio Lamucci:

http://www.valor.com.br/cultura/4668261/perda-de-credibilidade-dificulta-ajuste

3 – Mansueto concedeu entrevista ao Estadão sobre o livro:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ajuste-fiscal-so-e-aceito-na-teoria-diz-mansueto,10000068557

4 – Vejam também minha participação no jornal da Record News divulgando o livro:

http://noticias.r7.com/record-news/jornal-da-record-news/videos/especialista-explica-ajuste-fiscal-proposto-pelo-governo-temer-13082016

5 – E aqui, vejam entrevista que concedi à Época:

http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/08/no-curto-prazo-resta-ao-governo-aumentar-impostos-diz-economista-felipe-salto.html

6 – Também na Jovem Pan, com a Denise Campos de Toledo, Mansueto e eu falamos sobre o livro:

veja aqui:

http://jovempan.uol.com.br/programas/jornal-da-manha/ajuste-deve-vir-do-corte-de-despesa-defende-economista.html

e aqui:

http://admin.jovempan.com.br/noticias/economia/excesso-de-conciliacao-com-os-estados-prejudica-ajuste-das-contas-publicas-diz-economista.html

Compartilho também algumas fotos do evento em São Paulo:

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Livro | Lançamento em Brasília

[Lançamento em Brasília] – Amigos, convidamos a todos para o lançamento do nosso livro “Finanças públicas: da contabilidade criativa ao resgate da credibilidade”, organizado por mim e pelo Mansueto Almeida Jr.

São nossos coautores:

Mailson da Nóbrega,
Gustavo Loyola,
Mauricio Oreng,
Sergio Praca,
Helio M. Tollini,
Marcos Mendes,
José Roberto Afonso e
Pedro Jucá Maciel.

O prefácio é do professor Edmar Bacha e a orelha foi escrita pelo senador e ministro José Serra. A editora é a Record (Grupo Editorial Record). Nos vemos lá!

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Confirme presença aqui: https://www.facebook.com/events/1756161824641202/

Livro | Lançamento em São Paulo

[Lançamento em São Paulo] – Amigos, convidamos a todos para o lançamento do nosso livro “Finanças públicas: da contabilidade criativa ao resgate da credibilidade”, organizado por mim e pelo Mansueto Almeida Jr.

São nossos coautores:

Mailson da Nóbrega,
Gustavo Loyola,
Mauricio Oreng,
Sergio Praca,
Helio M. Tollini,
Marcos Mendes,
José Roberto Afonso e
Pedro Jucá Maciel.

O prefácio é do professor Edmar Bacha e a orelha foi escrita pelo senador e ministro José Serra. A editora é a Record (Grupo Editorial Record).

Nos vemos lá!

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Confirme sua presença aqui: https://www.facebook.com/events/1135323189874019/

120… 150… 200 km por hora

O ESTADO DE S. PAULO – FELIPE SALTO E JOSÉ ROBERTO AFONSO**

22 de Junho de 2016

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,120-150-200-km-por-hora,10000058522

Esta antiga música do cantor Roberto Carlos ilustra bem o desafio do ajuste fiscal que se impõe ao Brasil: ou tiramos o pé do acelerador ou bateremos o carro. A dívida bruta do País, já elevadíssima para uma economia emergente, é agravada pelos juros mais altos do mundo. A economia sofre a pior crise desde 1929, por isso a arrecadação de tributos está no fundo do poço. A tempestade perfeita se completa com uma crise política sem precedentes.

O governo interino de Michel Temer não se furtou a enfrentar esses problemas e procurou responder com um “novo regime fiscal”. O seu ponto de partida é uma proposta de emenda constitucional para limitar o crescimento anual do gasto primário federal à inflação do ano anterior.

O teto ora proposto é comparado aos limites de velocidade no tráfego, que são essenciais para disciplinar o trânsito, mas desde que acompanhados de uma série de outras regras, restrições e multas previstas no Código de Trânsito Brasileiro.

Não basta colocar uma placa na estrada com o limite máximo de velocidade de 120 km/h. É necessário ter fiscalização e previsão e aplicação de sanções que levem o condutor a agir de maneira responsável. Da mesma forma, construir um novo regime fiscal exige disciplinar as receitas, as despesas, a dívida pública e o patrimônio. A recente proposta é como a placa que passará a informar o limite máximo, mas que, sozinha, será insuficiente para dirimir os enormes equívocos e excessos cometidos na direção das contas públicas.

A boa notícia é que já tramitam no Congresso Nacional alguns projetos que ajudariam a formar um bom código fiscal. É o caso daqueles que tratam das normas gerais de orçamentos e contabilidade pública, da responsabilidade de empresas estatais, da criação do conselho de gestão fiscal, da responsabilidade fiscal nos Estados e do controle da dívida federal.

Aliás, fixar limites para a dívida da União é crucial para assegurar sucesso à limitação do gasto. A experiência internacional mostra que muitos dos países que adotaram o teto para o gasto também fixaram limite para a dívida. No caso do Brasil, bastaria aprovar o projeto de resolução nos termos do substitutivo do senador José Serra, no plenário do Senado, para o limite entrar em vigor. O texto prevê uma trajetória gradual de redução da dívida em proporção da receita no prazo de 15 anos.

Alerta. Outro entrave para calibrar de forma adequada a velocidade máxima do gasto é que pelo menos 14 rubricas da despesa pública estão sujeitas a algum tipo de indexação ou vinculação. Elas representam R$ 700 bilhões. Não por outro motivo, o professor Edmar Bacha tem alertado que o teto poderá paralisar o governo, se não for bem feito. Bacha também tem lembrado, diante de nosso vício de atentar apenas para o resultado primário (que não considera os juros pagos pelo setor público), a importância do déficit nominal.

Se o déficit primário federal for de R$ 170 bilhões, até o final do ano, com juros pagos em torno de R$ 460 bilhões (sendo metade referente aos custos das operações cambiais e compromissadas do Banco Central), o déficit nominal poderá chegar a impressionantes R$ 630 bilhões, ou 10,5% do Produto Interno Bruto (PIB). O superlativo desses números é inversamente proporcional à qualidade do debate público sobre os efeitos fiscais das políticas do Banco Central.

O Poder Executivo não pode perder os ventos favoráveis sentidos pelos agentes econômicos, e para isso precisará criar fatos novos.

Emblemático seria apoiar e aprovar, dentre outras regras, o limite de velocidade máxima também para a dívida da União. É uma regra que completa e fortalece o regime de responsabilidade fiscal, enquanto se adota uma estratégia sólida para superar a depressão econômica, a principal salvação para as contas públicas. Só crescendo muito, mas muito mesmo, será possível gastar menos, bem menos.

** São, respectivamente, economista pela FGV/EESP e coautor do livro ‘Finanças Públicas: da Contabilidade Criativa ao Resgate da Credibilidade’, a ser publicado em agosto pela Editora Record; e doutor em economia pela Unicamp, pesquisador do IBRE/FGV e professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP)

Entre Aspas (GloboNews – 27/04)

Participei, ontem, do Programa Entre Aspas, da Globo News, apresentado pela jornalista Mônica Waldvogel. A íntegra das discussões, que se concentraram no tema fiscal e, em particular, na grave crise econômico-financeira dos estados, pode ser vista clicando na foto a seguir.

Sem título

O enigma resolvido das operações compromissadas (Valor – 19/04/16)

O enigma resolvido das operações compromissadas

Por Felipe Salto*

Nas últimas semanas, o governo enviou à Câmara um projeto de lei complementar (PLP nº 257) que permitirá ao Banco Central utilizar os chamados depósitos remunerados em complemento às operações compromissadas para gerenciar liquidez. Feita de maneira desconectada do contexto econômico e dos problemas do relacionamento entre o Tesouro e o BC, a mudança não melhorará a eficiência da política econômica.

A modificação proposta altera a Lei nº 4.595, de 1964, em seu artigo 10, autorizando que, além de compra e venda de títulos (compromissadas), a política monetária possa aceitar depósitos remunerados. Trata-se de uma forma de retirar dinheiro da economia por meio da manutenção de depósitos voluntários feitos pelos bancos no BC, remunerando-os a uma determinada taxa (próxima da Selic).

Feita de maneira transparente e acompanhada de outras mudanças nas regras do jogo, a possibilidade de receber depósitos dos bancos e remunerá-los poderia funcionar. Para isso, no entanto, seria necessário alterar o conceito de dívida bruta utilizado pelo Banco Central, incluindo toda a carteira de títulos sob responsabilidade da autoridade monetária na estatística de endividamento, e não apenas as operações compromissadas.

Hoje, do total de R$ 1,3 trilhão, o valor referente às compromissadas aparece na dívida (R$ 1 trilhão), mas os títulos livres (R$ 300 bilhões), não. Assim, se toda a dívida fosse considerada como passivo do governo, a redução das compromissadas e o aumento dos depósitos remunerados não afetariam a dívida total. Da forma como é hoje, a troca de compromissadas por depósitos remunerados reduziria artificialmente o patamar de endividamento bruto, já que o aumento dos títulos livres ficaria de fora da dívida bruta. Esse é o primeiro problema.

Mas antes de discutir propostas de mudança, é preciso ter claro quais os fatores que condicionaram esse forte aumento das compromissadas, que em dezembro de 2007 representavam R$ 77,4 bilhões. Até 2012, a acumulação de reservas internacionais para combater a chamada “guerra cambial” levou a uma necessidade importante de esterilização dos efeitos dessa compra acelerada de dólares sobre a base monetária.

De lá para cá, a piora do resultado primário e a política de swaps cambiais complementaram esse processo. Essa deterioração do resultado nominal do setor público exigiu mais e mais endividamento. Além disso, o aumento da percepção de risco dos agentes econômicos provocou novos custos para o erário, já que o mercado passou a exigir juros crescentes para financiar os déficits anuais.

Outra explicação central é a política de gestão da dívida do Tesouro, que não quis pagar a conta de suas políticas expansionistas. Pretendendo melhorar o perfil da dívida, reduziu à força a emissão de Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). Derrotado pela lei da procura, o Tesouro teve de ser substituído pelo Banco Central, que supriu essa necessidade de expansão da dívida com a realização de operações compromissadas.

O que sustentou essa multiplicação de quase 13 vezes no patamar das compromissadas foi uma mudança legal promovida em 2008. A lei nº 11.803 criou a seguinte sistemática: quando o BC tem lucro nas suas operações cambiais, ele repassa o dinheiro, semestralmente, para a conta única do Tesouro. Quando o BC tem prejuízo, o Tesouro cobre o buraco com títulos emitidos para o BC, o que aumenta a carteira total do banco.

O tal lucro cambial, quando há, decorre da alta do dólar aplicada sobre o valor das reservas medido em reais. O prejuízo, por sua vez, decorre da valorização do real. Essa relação intrincada produziu a explosão da carteira do BC e do caixa único do Tesouro.

É preciso cortar esse cordão umbilical entre as duas instituições, limitando o repasse do lucro cambial para o Tesouro. A verdade é que o lucro gerado pela valorização das reservas é meramente virtual, porque o BC não vende, efetivamente, as reservas, antes de repassar o dinheiro ao governo. Ele apenas usa o fato desse ativo ter valorizado, em reais, para repassar os recursos. Por outro lado, os títulos repassados ao BC para cobrir prejuízos não são virtuais e representam aumento de dívida em potencial.

Mudar isso é o passo inicial, alterando-se a lei nº 11.803 para coibir os repasses livres. Esses recursos que engordam o caixa único, em tese, só podem ser destinados para amortizar dívida e pagar juros. Contudo, por meio do mecanismo de troca de fontes, como vimos no final do ano passado, os recursos acabaram financiando despesas primárias.

A segunda etapa é segregar a contabilização do lucro e do prejuízo do BC em uma conta à parte, no próprio BC, que não mais servirá para balizar repasses de dinheiro ou recebimento de títulos pela autoridade monetária. Naturalmente, isso obrigaria uma gestão mais austera do mercado aberto, isto é, dos títulos públicos nas mãos do BC. A carteira e a conta única parariam de aumentar.

O terceiro passo é a recompra, com dinheiro da conta única, do excedente de títulos hoje existente na carteira do Banco Central. Só assim a conta única murcharia, reduzindo a margem para má utilização desses recursos, como no final do ano passado (pagamento de pedaladas). No fim das contas, o nível de operações compromissadas voltaria ao normal. Um resultado esperado muito relevante é o aumento da potência da política monetária, com redução do custo médio da dívida.

O quarto passo necessário é adotar medidas de contenção da despesa primária, a fim de que a perspectiva de melhora do resultado fiscal levasse à aceitação, por parte do mercado, de um perfil de dívida mais longo. A redução da exposição do Banco Central no mercado futuro de câmbio (swaps) seria uma medida auxiliar importante para conter o déficit nominal.

Essas medidas tornariam mais límpido o relacionamento entre o governo e a autoridade monetária. Os depósitos remunerados são uma espécie de “enigma resolvido”, isto é, a solução que se apresenta para o problema identifica-se com o próprio problema. Desfazer o imbróglio das compromissadas exigirá mais do que uma troca de nomes.

*Felipe Salto é economista pela FGV/EESP, onde também ministra aulas nos cursos Master, e assessor do senador José Serra (PSDB-SP).