Juros | Folha | 22-10

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/10/1825286-banco-central-acertou-ao-reduzir-taxa-de-juros-sim.shtml

“Banco Central acertou ao reduzir taxa de juros? SIM”

BOM COMEÇO, MAS QUEDA DEVERIA SER MAIOR

Felipe Salto* – Folha de S. Paulo (pág. A3)

 

O Banco Central tomou coragem e iniciou um ciclo de redução dos juros. A queda foi de 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. A intensidade deveria ter sido maior, mas já é um começo.

Apesar das incertezas, a melhora das expectativas, resultado da atitude decidida do governo Michel Temer na seara fiscal, deu mais força à redução da Selic. Juros menores têm o condão de turbinar o investimento. A dívida das empresas cai e o gasto do governo se retrai. Nessa toada, voltaremos a crescer.

Se a taxa interna de retorno de um projeto de investimento é inferior à remuneração oferecida nos títulos públicos (a Selic), o projeto não sai do papel. Logo, quanto menor a taxa de juros, maior o número de investimentos viáveis economicamente.

O retorno de 10% em uma fábrica de sapatos é muito ou pouco? Depende de quanto eu ganharia colocando esse capital em títulos públicos.

Ao fixar determinado nível de juros, busca-se certo patamar de inflação em um prazo de um ou dois anos, mas sem tirar o olho do lado real: produção, emprego e investimento.

Por exemplo, para o ano que vem, o próprio BC já prevê uma inflação de 4,4%, abaixo do centro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (4,5%). Quanto ao PIB, nunca estivemos tão mal: um tombo, entre 2015 e 2016, de mais de 7%.

Os analistas preveem inflação de 5% para os próximos 12 meses. Desde novembro do ano passado, a expectativa dos agentes econômicos já caiu quase dois pontos e meio.

Isto é, o juro real, variável mais relevante para a decisão de investimento (pois desconta a perda com a inflação), estava subindo até a última quarta-feira (19), mesmo com a Selic inalterada.

O juro brasileiro é uma espécie de jabuticaba. Amarga. Com dívida de 70% do PIB ou R$ 4,3 trilhões, o Brasil paga 8,5% de juros reais. Países com níveis similares de dívida têm taxas de juros reais negativas ou, quando positivas, iguais a 2% ao ano, no máximo.

Os juros brasileiros estão muito acima do nível internacional acrescido do risco país. Isto é, estamos pagando muito mais do que o necessário para cobrir o diferencial de risco para o investidor que tem de decidir colocar dinheiro aqui ou mandar para os Estados Unidos. Isso cria um estímulo para a entrada de dinheiro especulativo no Brasil: entra, ganha o juro e vai embora depois do pernoite.

Marcos Lisboa argumentou nesta Folha que o critério da taxa natural seria o relevante para a decisão sobre os juros. Trata-se do seguinte: observar como está se comportando o consumo (incluindo o governo) e a capacidade de produção e, na presença de pressões excessivas do primeiro sobre a segunda, juros para cima.

Ora, mas se a economia está em depressão profunda, a léguas de distância do seu potencial (o máximo PIB possível dadas a mão de obra, a infraestrutura, a produtividade etc.), esse argumento não para em pé por mais de dois segundos.

Isso não anula a necessidade de ajuste fiscal duro, profundo e abrangente. O Estado precisa ganhar músculos e perder peso para financiar mais e melhores políticas públicas.

Aliás, só como resultado da redução de 0,25 ponto percentual, o setor público deixará de pagar R$ 6,5 bilhões em juros ao setor privado. Do ponto de vista das empresas, menos dívidas e mais investimentos.

O BC tomou a decisão certa, sobretudo diante da perspectiva de equacionamento do buraco das contas públicas com a PEC do teto de gastos. Todavia, é preciso intensificar a redução.

Ao realinhar estruturalmente os juros, combateremos a tendência crônica de valorização artificial do real frente ao dólar e, com isso, desintoxicaremos a indústria e teremos a oportunidade de voltar a crescer e a reduzir a pobreza.

*FELIPE SALTO, economista, mestre em administração pública pela Fundação Getulio Vargas, é coautor do livro “Finanças Públicas: da Contabilidade Criativa ao Resgate da Credibilidade” (Record)

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GloboNews Especial: Dívida Pública

Vejam a íntegra do GloboNews Especial de ontem (18/09), que tratou sobre o problema da dívida pública no Brasil. Contribuí com comentários sobre o quadro atual e a necessidade de recuperarmos a austeridade fiscal e a capacidade de elevação dos investimentos em substituição ao excesso de despesas correntes.

Assista à íntegra aqui: http://globosatplay.globo.com/globonews/v/5315215/

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Delfim Netto | Construindo a Alternativa

13082606_974704385932526_1115905471188786615_nOntem, no Centro Ruth Cardoso, em São Paulo, nosso grupo de discussão e formulação – o Construindo a Alternativa – organizou um seminário com o Professor Antonio Delfim Netto. A discussão girou em torno da conjuntura econômica e política, mas também das portas de saída que o novo governo precisará abrir.

Delfim falou muito sobre a competitividade da indústria nacional. A relação entre a taxa de câmbio e os salários, que começou a melhorar, foi bastante castigada ao longo da última década. Enquanto não recuperarmos a capacidade de exportar e de investir, não haverá retomada do crescimento.

Sobre o provável governo Temer, Delfim destacou a capacidade de articulação política do vice-presidente e mostrou que, neste momento, essa virtude será positiva para aprovar reformas e fazer a economia voltar a rodar. É preciso, segundo o ex-ministro, ter um conjunto de medidas prontas para “colocar o Congresso para trabalhar”.

O evento foi muito interessante e trouxe ideias novas e reflexões para o nosso grupo. Veja na Folha de S. Paulo, no Nexo Jornal e no Blog da Míriam Leitão, um pouco mais sobre o encontro com Delfim:

1 – Reportagem da Folha:

“Temer é capaz de ‘fazer tricô com quatro agulhas’, afirma Delfim”

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/05/1766978-temer-e-capaz-de-fazer-trico-com-quatro-agulhas-afirma-delfim.shtml

2 – Matéria do Nexo:

“O que Delfim Netto diz da atual situação econômica em 3 pontos”

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/05/03/O-que-Delfim-Netto-diz-da-atual-situa%C3%A7%C3%A3o-econ%C3%B4mica-em-3-pontos

3 – Blog da Míriam Leitão: 

“Maiores erros de Dilma aconteceram no auge da popularidade, diz Delfim Netto”

Dívidas estaduais (Record)

Vejam a seguir a íntegra da entrevista que concedi ao jornalista Heródoto Barbeiro, do Jornal da Record News, nesta sexta (8 de abril), a respeito da renegociação das dívidas dos estados. Falamos da recente decisão do STF sobre Santa Catarina e discutimos seus potenciais desdobramentos. O quadro é muito sério.

Clique aqui e assista:

http://noticias.r7.com/jornal-da-record-news/videos/?idmedia=570867d50cf26d136aabb7c0image

 

Por quem os sinos dobram? (Folha – 19/01)

Leiam, na Folha de S. Paulo, análise que produzi sobre a nova rodada de aumento de juros que se avizinha. Em um quadro de desconfiança dos agentes econômicos quanto ao futuro da economia, aumentar os juros só gera custos – despesas, déficit e dívida maiores. Isso pressiona o preço do dólar e, finalmente, gera mais inflação. É um enorme tiro no pé.

Veja a análise completa no site da Folha de S. Paulo clicando aqui.

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José Serra: E la nave va… alla deriva

E la nave va… alla deriva, por José Serra

O Estado de S. Paulo | página A2 | 26 de novembro de 2015

“Não há necessidade maior para as pessoas que vivem em comunidade que a de serem governadas, autogovernadas se possível, bem governadas se tiverem sorte, mas, em qualquer caso, governadas”. Walter Lippman

A economia brasileira passará o réveillon na UTI e nela permanecerá por um bom tempo. Sabemos hoje que os vaticínios pessimistas sobre 2015 foram demasiado amenos. A realidade, como se vê neste final de ano, acabou sendo bem mais adversa. O principal indicador do nível da atividade econômica, o PIB, teve uma contração em torno de 3 por cento. De ponta a ponta, ou seja, comparando este último trimestre com o mesmo período de 2014, a queda estimada é mais forte: 4,5%.

Como o setor agropecuário, ao longo do ano, teve uma performance razoável – crescimento em torno de 2% – e a área de serviços sempre varia em torno da média, os dados ruins sobre o PIB escondem algo pior: a evolução catastrófica da indústria manufatureira, cujo produto caiu em torno de 11%. A marcha para a ruína do setor, iniciada pela política econômica do segundo governo Lula, prossegue implacável. Basta mencionar que o produto industrial nunca mais superou o nível de 2008. Eis a grande marca econômica da era petista: a desindustrialização do Brasil.

A pesquisa mensal do comércio aponta para um declínio superior a 11% nas vendas no varejo, batendo com o declínio da massa salarial, da ordem de 10,5 % de outubro a outubro.

Já os investimentos do conjunto da economia têm caído aproximadamente 12% – causa e efeito da queda observada na indústria. A contração dos investimentos governamentais atinge espantosos 40%!

Do lado do emprego, os números absolutos são impressionantes: no acumulado em 12 meses houve destruição líquida de 1,4 milhão de vagas (carteira assinada), das quais 557 mil na indústria de transformação e 442 mil na construção civil, acertando em cheio setores de menores rendimentos. Coisa igual pode ter acontecido com a remuneração dos trabalhadores no setor informal da economia. Em outubro deste ano, os rendimentos reais dos brasileiros foram 7% inferiores aos de outubro do ano passado.
Pelo menos 1 milhão de assalariados formais perderam seu plano de saúde junto com o emprego. Os gastos reais do SUS, incluindo estados e municípios, caíram em torno de 5% nos dez primeiros meses de 2015 em comparação com 2014. O colapso das finanças municipais e estaduais é assombroso, e compromete diretamente o atendimento nas áreas sociais. No caso dos estados, entre janeiro e agosto, em relação ao mesmo período de 2014, as receitas reais caíram em média 5,4%.

E o futuro próximo? As previsões sobre o PIB apontam para a persistência da retração em 2016 – cerca de 2%, que será mais intensa no primeiro semestre.

Do ponto de vista social, ou seja, da oferta de serviços básicos, dos rendimentos e do emprego, o quadro adverso de 2015 irá se acirrar nos próximos meses. Em parte, isso se deve ao fato de que as consequências do desemprego sobre a renda e a demanda das famílias são proteladas no Brasil em virtude dos benefícios recebidos por quem é demitido. Assim, o trabalhador com carteira assinada que perde o emprego recebe pelo menos o saldo do FGTS recolhido, mais multa de 40% sobre esse saldo, seguro desemprego, aviso prévio de um mês, férias proporcionais (incluindo o abono de férias) e fração de décimo-terceiro salário. Somados, esses benefícios dão alívio temporário para os recém desempregados. Por isso, os efeitos da onda recente de desemprego tenderão a se manifestar com intensidade crescente nos primeiros meses de 2016.

Além dos naturais efeitos da contração industrial que se espraiam por toda a economia, tudo indica que que o país se confrontará com a retração da oferta de crédito das instituições financeiras públicas e privadas, cada vez mais temerosas com solvência das empresas, e alarmadas com o naufrágio de projetos que envolvem a Petrobrás, como é o caso da Sete Brasil.

Um indicador já “antigo” mostra o início desse processo: no terceiro trimestre de 2015, em relação ao mesmo período do ano passado, as despesas com provisões para devedores duvidosos dos quatro maiores bancos cresceram acentuadamente: Bradesco, 15%; Itaú, 29%; Banco do Brasil, 88%; e Caixa Econômica Federal, 87%. Aliás, o balanço do terceiro trimestre do BB revela forte prejuízo operacional: o lucro líquido apurado só foi possível pela incorporação nos resultados de ativos fiscais diferidos.

Mais ainda, a piora das expectativas dos agentes econômicos funciona como profecia que se autorrealiza. Ou seja, a ideia de que a economia irá mal provoca queda adicional do produto e do emprego. Um vetor nesse sentido vem das agências de rating, cujos vereditos negativos funcionam de forma procíclica, reduzindo investimentos, dificultando e encarecendo a rolagem de financiamentos e redundando em rodadas adicionais de contração da economia.

Convenhamos, de todo modo, que há bons pretextos para essa atitude das agências. De um lado, uma empresa do tamanho da Petrobrás perde capacidade de rolar suas dívidas. Do outro, o déficit público agregado e acumulado aumenta 115% em doze meses, passando de R$ 250 bilhões em setembro de 2014 para R$ 536 bilhões um ano depois! Só de juros, os gastos chegaram a R$ 510 bilhões no período – cerca de cinco vezes o orçamento federal da Educação e dezoito vezes o Bolsa Família.

De fato, minha sensação, ou conclusão, é que dias melhores não virão. A menos que…

A menos que haja uma mudança política de grande profundidade. Ou seja, a economia dependerá mais do que nunca da política. O atual governo, inepto, inseguro, sem rumo nem sustentação congressual, é um elo decisivo do círculo vicioso que empurra o Brasil para trás e para baixo.

Lembro, a esse respeito, a opinião externada em discurso na semana passada por um senador do PSB, Fernando Coelho. Ele propôs que a presidente Dilma Rousseff incite a Câmara de Deputados a apreciar ao menos um dos pedidos de impeachment que se acumulam naquela Casa. Se vencesse, retomaria alguma condição de governar. Se perdesse, abriria a chance de o Brasil voltar-se ao futuro. Do jeito que vai, só lhe restará contemplar o barco que não dirige continuar à deriva no mar bravio.

Entrevista ao Jornal da Globo (01/12/2014) – expectativa de vida e previdência social

No Jornal da Globo desta segunda-feira, comento os impactos do aumento da expectativa de vida sobre as contas da previdência e discuto possíveis soluções para o problema. Assista à entrevista e à reportagem completa da jornalista Renata Ribeiro clicando aqui – http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/12/aumento-na-expectativa-de-vida-traz-um-grande-impacto-na-aposentadoria.html

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Ajuste fiscal é chave para o crescimento – Felipe Salto e Rafael Cortez | Folha (6 de novembro de 2014)

Nesta quinta-feira, 6 de novembro de 2014, publiquei artigo, na Folha de S. Paulo, em parceria com Rafael Cortez, sobre a importância e a dificuldade do ajuste fiscal. Leia mais no portal do jornal.

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Entrevista ao Broadcast da Agência Estado (31/10/14)

“No próximo ano, será necessário um ajuste das contas públicas”, diz economista

Felipe Salto, da consultoria Tendências, diz que com o rombo de R$ 25,491 bilhões do setor público em setembro, deve ser registrado um déficit em 2014 para as contas do governo central

Por Agência Estado |13h59 | 31-10-2014

Com o rombo de R$ 25,491 bilhões do setor público consolidado em setembro, que gerou um número negativo de R$ 15,286 bilhões no acumulado do ano, deve ser registrado um déficit em 2014 tanto para as contas do governo central como também para o conjunto formado por União, Estados e municípios, comentou ao Broadcast Ao Vivo Felipe Salto, economista da consultoria Tendências.

“No próximo ano, será necessário um ajuste das contas públicas. E isso será importante também devido à condição apresentada pela situação fiscal durante o governo da presidente Dilma Rousseff”, afirmou Salto. “Para isso, um contingenciamento do Orçamento entre R$ 55 bilhões e R$ 65 bilhões em 2015 seria necessário, a fim de gerar um superávit primário entre 1% e 1,5% do PIB”, disse.

De acordo com Salto, o fraco resultado das contas públicas é devido em boa parte por dois fatores: um deles é o elevado montante de desonerações tributárias, que para ele devem ficar próximas a R$ 100 bilhões neste ano. Um segundo motivo é a queda da arrecadação dos cofres oficiais, cuja raiz principal é o fraco desempenho da economia. Além disso, ele também destaca que o ritmo dos gastos federais está mais veloz do que o registrado pelas receitas. “Em porcentagem do PIB, a despesa cresceu em três anos do governo Dilma o mesmo que nos 12 anos anteriores”, afirmou.

Na avaliação de Felipe Salto, é importante reconhecer que o ajuste fiscal no próximo ano será difícil, inclusive porque o País crescerá pouco, no máximo 1%. Por outro lado, ele manifesta que há um sinal desfavorável do governo na busca por mais equilíbrio da gestão das contas públicas com a notícia veiculada pelo Broadcast de que o Tesouro poderá fazer um novo aporte de R$ 20 bilhões ao BNDES. “Não se sabe se o ajuste será feito pelo governo que sobe juro ou pelo governo que não desmama o BNDES do Tesouro”, destacou. Ele ressaltou que a administração federal parece “um sujeito bipolar”, que ora quer correção fiscal, mas dá indicações que isso não vai ocorrer.

Em função do início do terceiro ciclo de aperto monetário no governo Dilma, que na quarta-feira, 29, subiu a Selic de 11% para 11,25%, Salto pondera que é “urgente” que o governo suba a Taxa de Juros de Longo Prazo, a TJLP. Do contrário, o descasamento entre estes dois preços relativos ficará ainda maior.