Entrevista a Fábio Alves, do Estadão (27/10/2014)

Por que o mercado azedou com o discurso de vitória de Dilma

Fábio Alves

27 outubro 2014

Dilma não disse nada do que o mercado queria ouvir (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Para o mercado financeiro, o segundo mandato de Dilma Rousseff começou no domingo, 26, logo no seu primeiro pronunciamento como presidente reeleita.

E à Dilma, pelo comportamento dos preços dos ativos na abertura, não foi dado um período de lua de mel, como acontece com os presidentes eleitos, ela inclusive em 2011. O dólar disparava para ao redor de R$ 2,55 por volta das 10 horas da manhã desta segunda-feira.

A Bovespa chegou a cair 6,20% na mínima de hoje até as 11h00, em 48.722,29 pontos, e há pouco a perda era de 4,8%.

E por que tanto mau humor?

Com a palavra um renomado executivo financeiro: “Três elementos são importantes agora na área econômica: nomes, programa e cronograma”. Ele acrescenta: “O discurso de ontem não contempla nenhum deles e a Presidente reeleita não parece demonstrar urgência com o assunto.”

De fato, no seu discurso de domingo à noite, Dilma disse apenas que promoverá “ações localizadas” na economia, “para retomarmos nosso ritmo de crescimento, continuarmos os níveis altos de emprego e assegurando, também, a valorização dos salários”. Em nada as palavras da presidente reeleita parecem indicar um ajuste macroeconômico nem mudança no que o mercado batizou de “nova matriz econômica”. Afinal, ela falou apenas em “ações localizadas”.

Sim, ela falou que “seguirei combatendo com rigor a inflação e avançando no terreno da responsabilidade fiscal”, mas isso Dilma vem repetindo desde 2011.

A presidente não terá alívio do mercado financeiro nesta semana, quando dois eventos poderão azedar mais ainda a sua relação com investidores e analistas.

Na quarta-feira, dia 29, o Copom divulgará sua decisão sobre a taxa Selic. É consenso entre analistas que o Banco Central manterá a taxa básica de juros inalterada em 11% ao ano, mas há uma parcela crescente do mercado que espera uma sinalização de aperto monetário adicional do BC no comunicado que acompanha a decisão.

Para essa corrente do mercado, a rápida desvalorização do real nos últimos dois meses requer uma ação do BC, uma vez que se espera algum repasse dessas perdas cambiais aos preços de bens e serviços. Em 2014, o dólar acumula ganho de quase 8% em relação ao real. E uma sinalização do BC é importante para controlar as expectativas inflacionárias, algo considerado como batalha perdida desde 2011, quando Dilma assumiu o comando do País.

Na pesquisa semanal Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo BC, os analistas esperam uma inflação de 6,45% para 2014 e de 6,3% para 2015.

E nesta sexta-feira sairá o resultado primário consolidado das contas do setor público para o mês de setembro.

É bom lembrar que em agosto o Governo Central, Estados, municípios e estatais, com exceção da Petrobras e Eletrobras, apresentaram déficit primário de R$ 14,460 bilhões em agosto, o pior resultado desde dezembro de 2008. Foi a primeira vez que o BC registrou déficit no resultado do setor público por quatro meses consecutivos.

E para setembro, a expectativa de analistas é para um número ruim. Os economistas da Rosenberg Associados, por exemplo, esperam um déficit R$ 7 bilhões em setembro apenas para o resultado primário do Governo Central, e essa estimativa já inclui a receita extraordinária do Refis. Para o setor público consolidado, a consultoria prevê um déficit de R$ 5 bilhões.

Ninguém espera que o governo cumpra a meta consolidada de superávit primário de 1,9% do PIB em 2014.

O economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, prevê um superávit primário de 1,5% do PIB neste ano, mas esta projeção tem um viés de baixa. Para o resultado recorrente, isto é, sem receitas extraordinárias, o número deverá ser de apenas 0,5% do PIB, “no máximo”, diz ele.

Ou seja, para o azedume de investidores e analistas, o discurso da presidente ficou aquém do esperado e muito mais do mesmo do que Dilma vinha falando durante a campanha eleitoral. Chegou-se a duvidar que suas palavras durante a corrida presidencial eram apenas para satisfazer o seu eleitorado e que, na hora necessária, ela poderia anunciar alguma mudança de rumos.

O seu discurso ontem não foi nesta direção.

Ela disse que sua prioridade está na reforma política, algo que não depende unicamente dela. O que depende apenas da vontade da presidente seria uma mudança de postura na sua política fiscal e parafiscal, em especial o uso dos bancos públicos, particularmente o BNDES, para promover empresas e setores específicos e também estimular o crescimento via consumo.

“Nas nossas contas, o BNDES já está custando quase R$ 30 bilhões ao ano e o banco já recebeu R$ 410,8 bilhões em empréstimos desde 2008″, diz Salto.

Sem falar no estrago à credibilidade do governo Dilma causada pela estratégia da chamada “contabilidade criativa” para turvar a noção do verdadeiro esforço fiscal brasileiro.

“A presidente Dilma manteve a contabilidade criativa como cerne de sua política fiscal, sob a liderança do secretário do Tesouro, Arno Augustin”, argumenta Salto. “A estratégia nos trouxe a um patamar de endividamento bruto da ordem de 60,1% do PIB, ante 53,4% do PIB em dezembro de 2010, já que ocultou a expansão e motivou o gasto e a renúncia tributária para além das possibilidades dadas pelo orçamento.”

Aliás, de nada adiantará a presidente nomear um nome forte para o Ministério da Fazenda se ela mantiver no cargo Arno Augustin, na visão de interlocutores desta coluna. Essa (a manutenção de Augustin no cargo) seria mais uma sinalização de que Dilma continuará sendo a mesma do primeiro mandato ao menos na economia.

Diante do mau humor do mercado, não há tempo para Dilma tergiversar: um sinal é preciso ser enviado imediatamente. A começar pelo novo ministro da Fazenda.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

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