Entrevista sobre a atuação do Banco Central e sua relação com a política fiscal (17 de outubro de 2014)

Leia a seguir a entrevista que concedi à jornalista Angela Bittencourt, da Casa das Caldeiras – Valor Econômico.

Moeda no curto prazo revela péssima qualidade da política fiscal

O crescimento acelerado das operações compromissadas do Banco Central com o mercado – ou a venda temporária de títulos do Tesouro que estão na carteira do BC com data determinada para recompra – não chega a ser um problema em si. Essas operações são parte de um processo de desmonte da política fiscal brasileira, vigente entre 1999 e 2007, que assumiu um viés francamente expansionista nos últimos anos. Esta é a opinião do economista da Tendências Consultoria Integrada, Felipe Salto, especialista em Finanças Públicas. Em entrevista ao Casa das Caldeiras, Salto reconheceu a possibilidade de o Banco Central praticar uma taxa básica menor, não fosse o setor público tão expansionista em termos fiscais. “Em verdade, a expansão observada no BC é reflexo, a meu ver, de um problema que se origina no Tesouro. A estratégia de colocação de títulos prefixados a um custo baixo, pelo governo, não tem surtido o resultado esperado, não tem encontrado demanda suficientemente elevada e, assim, o mercado acaba se dirigindo ao ‘guichê’ do BC. A autoridade monetária cumpre o papel de evitar o excesso de moeda e, portanto, o distanciamento da taxa do mercado aberto em relação à meta Selic.”

Leia abaixo trechos da entrevista:

Casa das Caldeiras: Esta concentração de moeda no curto prazo manda alguma mensagem e para quem?

Felipe Salto: Esse movimento é simbólico. Revela a péssima qualidade da política fiscal. O mercado está confiando cada vez menos na estratégia de política econômica adotada pelo atual governo. Precifica, portanto, juros elevados para o futuro e, com isso, acaba demandando remuneração excessivamente elevada para financiar as ações do setor público. É por esse motivo que voltamos a sustentar uma despesa com juros novamente na casa de 5% do PIB e um déficit nominal da ordem de 4% do PIB.

Caldeiras:  Há uma razão particular para o forte aumento das operações compromissadas do Banco Central com o mercado?

Salto: Os títulos que estão vencendo, no âmbito da Dívida Pública Federal, a DPF, levam a que o Banco Central tenha de suprir a necessidade de financiamento do setor público não coberta pela ausência de demanda do mercado pelos papéis que o Tesouro tenta empurrar nos leilões (títulos mais longos). Um segundo fator a explicar o aumento das compromissadas é o custo das operações de swap cambial, que gera efeito fiscal expansionista e, portanto, exige contrapartida do Banco Central [esterilizando moeda/retirando moeda de circulação]. Além disso, variações nos depósitos compulsórios e na própria Conta Única do Tesouro podem explicar os movimentos mais recentes.

Caldeiras: Os aportes de recursos feitos pelo Tesouro Nacional aos bancos públicos (com emissão de títulos) contribuiram, nos últimos anos, para a expansão dessas operações?

Salto: Quando o governo emite os papéis para o BNDES, ele os coloca nas mãos do banco, que os monetiza ao longo do tempo. A rigor isso não teria efeito sobre a liquidez (retira-se moeda num primeiro momento e coloca-se em um segundo). No entanto, a atuação excessivamente expansionista dos bancos [públicos], com assunção de subsídios elevados, pelo Tesouro, pressiona as necessidades de financiamento do governo federal e também gera efeitos expansionistas, o que tem explicado, a meu ver, uma parte da evolução das operações compromissadas. No entanto, até abril de 2012, a maior fonte de aumento das compromissadas era a formação de reservas – a compra de dólares pelo Banco Central em mercado para uma expansão acelerada e desmedida da conta de reservas internacionais.

Caldeiras: Se a política fiscal brasileira não tivesse um caráter tão expansionista nos últimos anos, o efeito monetário das operações do governo seria outro? O país poderia estar praticando uma taxa básica menor?

Salto: Sim, pois a política monetária teria sua potência aumentada. O crédito direcionado reduz o percentual de dinheiro sujeito às variações da taxa básica. O excesso de atuação do setor público eleva os juros básicos para além do razoável e expulsa o investimento.

Caldeiras: Para a gestão presidencial que tem início em janeiro as ‘operações compromissadas’ impõem alguma dificuldade? Essas operações somadas à dívida mobiliária, elevando a dívida bruta a R$ 3 trilhões deveriam impor cautela ao governo?

Salto: As operações compromissadas são parte de todo o processo. Em verdade, são mais o reflexo de um problema maior (desmonte da política fiscal praticada pelo governo entre 1999 e 2007) do que uma questão em si. O Banco Central melhoraria a gestão das compromissadas e reduziria a sua exposição se convivesse com um setor público menos expansionista em operação na economia real.

__

© 2000 – 2014. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:

http://www.valor.com.br/valor-investe/casa-das-caldeiras/3739596/moeda-no-curto-prazo-revela-pessima-qualidade-da-politica-f#ixzz3GdOHDrqb

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s