Delfim, Batista e o Real

O artigo publicado, ontem (18 de março de 2014), no jornal Valor Econômico, de autoria do professor e ex-ministro Antônio Delfim Netto (“Menos, Batista, menos…”, página A2), induz a conclusões erradas a respeito do Plano Real. Os desavisados são levados a crer que os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff poderiam ser colocados no mesmo balaio, sem qualquer distinção, e que as comemorações dos 20 anos do Plano Real teriam ensejado exageros por parte de seus idealizadores e executores. Ainda que o próprio Delfim se refira ao plano como “jóia”, ele produz um texto que desabona as comemorações do Real e relativiza as conquistas por ele engendradas. Ocorre que a análise do quadro macroeconômico dos três governos e de sua eficácia, no âmbito das políticas econômicas adotadas, precisa considerar a evolução dos indicadores e não apenas a “fotografia” do momento, como propôs o ministro.

Tenho enorme admiração e respeito pelo Professor Antônio Delfim Netto, que é um dos maiores economistas do país, mas ele cometeu grande equívoco analítico ao acusar os formuladores do Plano Real de falta de humildade, valendo-se de dados comparativos para os governos FHC, Lula e Dilma, e deixando de registrar que o governo Itamar Franco e o governo FHC retiraram o país da hiperinflação. Não se analisa um governo, meramente, pela fotografia de seu período, ainda que ela seja importante. É preciso mostrar o ponto de partida.

A injustiça de desconsiderar o ponto de partida é similar à que muitos cometeram (e ainda cometem) ao analisar a economia dos anos 1970 e negligenciar as reformas de Campos e Bulhões nos anos 1960. Seria justo? Não basta dizer (principalmente, quando estamos falando em inflação) que os governos entregaram x%, y% e z% para tais indicadores e, portanto, são igualmente medíocres ou brilhantes. A meu ver, é preciso apontar onde figuravam os índices de inflação (e os demais indicadores escolhidos pelo autor), nos tempos pregressos, e onde passaram a figurar em seguida.

Assim, proponho uma alteração na tabela de Delfim Netto, conforme apresentada ao final de seu artigo de ontem, incluindo mais uma coluna, que permitirá mostrar as bases de comparação anteriores ao período FHC. Acho mais justo. Dessa forma, evitamos que os pais do Real, incluindo nosso sempre presidente Fernando Henrique Cardoso, sejam comparados ao aluno Batista da saudosa Escolinha do Professor Raimundo, como concluiu Delfim, em seu artigo, apontando o dedo para a suposta arrogância dos formuladores do Real.

Fica muito claro, pela tabela, que o Brasil deve comemorar, sim, os êxitos do Real, mais do que nunca, o que só fará bem ao processo eleitoral que já se encaminha. Ajudará a que um bom debate seja travado. Por que se incomodar com isso? Mudanças estruturais não acontecem todos os dias. Vamos comemorar as nossas conquistas! Uma nação se constrói em torno de símbolos. Acaso a moeda forte, o Real, não é um desses símbolos a serem exaltados? Batamos os bumbos, senhores! Há muito por comemorar, sim.

Finalmente, vale mencionar que a tabela traz algumas diferenças em relação aos dados apresentados no quadro original. Isso se deve, provavelmente, a diferenças de fontes e formas de cálculo das médias para os períodos. Nós utilizamos a média geométrica. Para os dados de crescimento mundial, a fonte é o FMI; para transações correntes, Banco Central do Brasil; para inflação, IPCA do IBGE; para o déficit nominal, utilizamos uma série antiga do Tesouro, para o período de 1987 a 2001 e, partir de 2002, usamos a série oficialmente divulgada pelo Banco Central. Também desconsideramos o ajuste pelo PPI (índice de preços para descontar variações do lado das importações utilizado na tabela do ministro Delfim Netto, pois ou bem se descontam as variações extraordinárias de preços do lado das expotações, igualmente, ou não faz sentido descontar apenas as variações do lado importador). O período 1987 a 1994 foi escolhido para que se pudessem consolidar 8 anos anteriores aos governos petistas e tucanos. Não nos interessa diferenciar sucessos e fracassos, neste post, dos governos Sarney, Collor e Itamar. Faria um último comentário: a aparente forte melhora observada no déficit nominal é muito mais uma resultante do controle inflacionário do que de aumento de esforços, propriamente, já que aqui estamos com os dados sem descontar a correção monetária da dívida pública (ver quadro).

Quadro do artigo do professor Delfim Netto para o Valor (18/03/14) com alterações:

Delfim

Fonte: FMI, IBGE e STN. Elaboração – Felipe Salto.

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