Genoíno e uma história de histeria (por Carlos Melo)

O artigo que reporto a seguir foi publicado pelo cientista político e professor do Insper, Carlos Melo, em seu blog (http://melo.blog.br/2013/11/16/genoino-e-uma-historia-de-histeria/). Creio que se trata da melhor análise sobre a prisão de José Genoíno e o debate que ela engendra. O que realmente importa: o debate histérico e a gritaria dos que pedem, feito a Rainha de Copas (de Alice no País das Maravilhas), para que se “cortem as cabeças”, ou o debate político de verdade e a construção coletiva de uma sociedade mais justa, de um Brasil melhor?

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Genoino e uma história de histeria

Carlos Melo

16 de novembro de 2013

Um testemunho pessoal, desde sempre questionável. A crueldade da política. Os próximos passos, nesse ambiente de histeria política que se formou no Brasil.

A insistência por um pronunciamento a respeito das prisões do mensalão leva a este texto. Por questões pessoais, sinceramente não gostaria de escrevê-lo. Ao fazê-lo, me vejo, antes de tudo, levado a mencionar o que acredito ser meus limites pessoais e constrangimentos para falar sobre o caso.

Bem, embora nunca tenha ocultado isto, o fato é que fui petista, trabalhei com José Genoíno (em 1997-98), que hoje é meu amigo e vizinho de algumas ruas de distância. Não sou tampouco antipetista, nem um dissidente do PT. O partido, para mim, é como Itabira de Drummond: um quadro pendurado na parede; às vezes dói, na maioria das vezes, não. Na verdade, não me desperta mais qualquer paixão. É apenas um objeto de análise. Ponto. Mas, claro que minha visão a respeito disso tudo pode estar de algum modo comprometida pela vida que tive e pelos valores que tenho. Mas, quem será diferente disso?

Tento me desviar de qualquer julgamento moral ou preferência pessoal, sou um cientista social e as pessoas, normalmente, costumam reconhecer isenção em mim. Deixei de ser crente ou torcedor há muito tempo; prefiro ser profissional; contribuo assim; meu foco são meus alunos e a sociedade. Lixo-me para os partidos; qualquer partido. Mas de todo modo, naturalmente devo ser um sujeito com vícios e defeitos, virtudes também. Prezo meus vínculos; embora nem sempre concorde, respeito meus amigos. E também por formação e afeição, identifico-me com uma geração que acreditou na transformação social e cultural do Brasil e que levou essa crença à ação e a ação às últimas consequências, às vezes de modo romântico e atabalhoado. Ver alguns ícones que admirei irem para a cadeia numa condição que os oprime moralmente, naturalmente, não me deixa feliz.

De modo que sobre as prisões do mensalão, minha opinião é de que entre os condenados há pessoas que, evidente, devem pagar por seus erros; há culpados, mas há também pelo menos um injustiçado talvez até menos pelo veredito dos juízes do que da opinião pública. Trata-se justamente desse meu amigo e vizinho a que me referi acima, José Genoíno. E se você achar, por isso, que advogarei em causa própria, por favor, pare por aqui e mantenhamos a relação cordial que sempre tivemos. Não leia o resto; nem perca seu tempo comentando. Por pragmatismo, não me julgue, pois se você for do tipo que se acha no direito de me julgar pelo que fui, sou e escreverei, quero lhe dizer, que seu julgamento não me interessa, nem me afeta.

Vamos lá. Recentemente, conversando com um respeitável parlamentar do PSDB, uma das peças centrais no governo FHC — sim, também tenho bons e sinceros amigos entre os tucanos –, ele se disse preocupado com José Genoíno. Soube de seu precário estado de saúde – realmente sério — e de sua depressão originada por tudo o que está vivendo — mesmo antes da prisão, estava confinado em casa, pois nem ao mercado comprar bananas podia ir sem ser hostilizado de modo muitas vezes covarde e oportunista. Meus caros, não se tripudia a alma alquebrada de um condenado!

Voltemos ao caso. Esse respeitável e sério tucano disse-me que o insuspeito senador Jarbas Vasconcelos (PMDB – PE) lhe teria afirmado categoricamente que “quem acredita que Genoíno seja um ladrão ou é um sujeito muito mal informado quanto à política, ou só pode ser mesmo um completo imbecil”. Disse-me o tucano que o caso de Genoíno lhe inspirava preocupações mais profundas que as disputas partidárias e que há nele um componente de humanidade que não poderia ser desconsiderado; que há nele um problema terrível quanto à qualidade da política que fazemos que precisava de alguma forma ser corrigido.

Não podia fazer muito, mas pediu-me que articulasse uma visita sua à Genoíno; fomos lá, à casa modesta numa rua modesta, resultado de uma vida modesta de uma pessoa modesta. Recentemente, alguém publicou na internet fotos da “mansão de Genoíno” que podem comprovar o que lhes digo. Em que pese todo esterco dos comentaristas de internet, tudo expressa a imagem de uma família de classe média como a maioria daqueles que navegam nas redes sociais.

Genoíno se mostrou comovido e agradecido pela visita, pessoa igualmente solidária, compreendeu o gesto de solidariedade à parte da rivalidade partidária e das disputas políticas. Ambos ali sabiam que a política pode ser mesmo muito cruel, brutal até. Ainda assim, o petista tentava enxergar o mundo e o colega parlamentar com olhar do homem altivo e honrado que sempre foi. Não se falou de prisão, não se falou de futuro, portanto; discutiu-se a saúde, o peso dos anos; medicação, assunto inevitável com o correr da idade. E se falou de passado: Dr. Ulysses, Luiz Eduardo Magalhães, ACM, Nelson Jobim, Segurança Nacional; Regime Militar e a prisão e o exílio de então, Resistência Democrática, Diretas-Já, Constituinte e a reconstrução do Brasil nesses anos recentes; a importância dos governos FHC e Lula. Enfim, a grande Política que um dia se fez neste país e que aqueles dois políticos tiveram a oportunidade de viver e eu de estudar. Saudades daquele Brasil.

Genoíno, foi minha impressão, fazia parte de um Brasil que se foi. Um Brasil mais generoso. E hoje é alvejado por um outro país, que, paradoxalmente, ele próprio ajudou a construir: melhor em vários aspectos, mas também piorado em muitos planos, sobretudo, no plano da convivência política.

O mensalão ficará para a história do Brasil e as prisões, como disse, não são sempre injustas. Se até mesmo Lula saiu pela tangente ao dizer que as recebia como cidadão e que não discutiria as decisões da Justiça, por que eu deveria fazer o contrário? Mas, não consigo omitir que sinto que o mensalão também ficará para a história da histeria política no Brasil.

Um sujeito como José Genoíno, por exemplo, pode ser punido por seus erros políticos. Ok. Inegavelmente, os teve. No meu entendimento, foi, sobretudo, acreditar e confiar em quem não deveria, atirar-se à ação política no governo Lula com toda a disposição e voluntarismo com que sempre pautou sua vida. Como o conheci bem, sei que sempre se atirou ao que fazia com a máxima paixão e, às vezes, sem pesar seus custos pessoais, ou antes desconsiderá-los.

Obedecer as decisões coletivas, a disciplina e o centralismo democrático da esquerda, e honrar o pacto (assimilado nos anos de clandestinidade e na tortura) de não entregar companheiros sob quaisquer argumentos ou pretextos; esta é sua cultura política, seu jeito de ser. Está na sua pele. Não foi a toda que ao entregar-se à polícia gritou: “Viva o PT”. Bem ou mal, foi a sua vida, a sua luta, o sonho de sua geração. Equivocado ou não, deixo a vocês essa consideração. Entendemos o homem e suas circunstâncias. Dentro desses princípios, e muitos outros, não posso considerar Genoíno como nada menos do que é, uma figura honrada.

Erros políticos também são punidos. Mas o problema de Genoíno não é que seja punido por eventuais erros políticos que cometeu — a análise é minha, certamente ele não concordaria. Mas que receba uma condenação moral e que passe para a história como ladrão e corrupto que não é, como acreditam os muito distantes da política ou os muito imbecis, como disse Jarbas Vasconcelos; os que o hostilizam nas ruas, nos mercados, no passeio com os netos, na porta de casa, da casa modesta, da Vila Indiana. Como os que a ele se referem como petralha, talvez por o julgarem por si próprios, e que se regozijam covardemente pela Internet; bastiões de uma valentia cômoda e segura, não!? Patifaria há em todo lugar, mas ultimamente ela tem se refugiado preferencialmente nos comentários dos posts das redes sociais, por exemplo. Mas, esse é outro assunto.

A política é mesmo muito cruel e brutal. Às vezes, imbecil; na maioria das vezes, imbecil.

Bem, ultrapassada então a consideração pessoal – que os que me compreendem sabem que não deixa de ser política também –, sobra a análise do evento político e dos fatos. As prisões ocuparam e ocuparão as manchetes nos próximos dias, aguçaram os espíritos mais cruéis nos comentários desses “especialistas” distantes e sem compromisso com a política. Foi momento de som e fúria, que se conhece desde antes de Shakespeare. Mas tudo passará, o Natal virá, o Ano Novo, o Carnaval e a Copa do Mundo também. E isso tende a deixar tudo numa bruma de lembrança muito distante em relação à eleição de 2014. Eleitoralmente, faz tempo, o mensalão foi precificado.

Mas, talvez sirva até mesmo para o contrário, dando justos argumentos para que o PT exija da Justiça e da Mídia o mesmo rigor para os outros mensalões e escândalos políticos que atingem praticamente quase todas as forças políticas que tiveram alguma relevância no jogo nacional. O pêndulo que foi, pode voltar com igual força, na direção contrária. Se pressão política houver, por paradoxal que possa parecer, será agora para o lado contrário do mensalão. De algum modo, o governo do PT poderá se não dizer pelo mesmo sugerir algo assim para a oposição: “corruptos, nós encarceramos os nossos, e vocês o que fazem com os de vocês?”. Não arrastar as prisões para o ano que vem, foi de algum modo bom para o governo e para o PT.

Mas, também nessa sanha por “troco” haverá algo de histérico e politicamente aproveitável por quem já foi exposto. Chegará a hora de a vidraça virar pedra.

Claro, é necessário fazer justiça; apurar tudo; como dizem os muito virtuosos e convictos, doa a quem doer. Mesmo a imprensa, pelo instinto não deixará de sobrevoar o campo, atraída pela carniça. Faz parte, é do inevitável jogo. Mas o problema é que nos limitemos a discutir quem tem mais ou menos corruptos, quem os oculta ou os expõe mais ou menos. E com isso se mantenha o debate bloqueado e a pauta de questões pelo menos tão relevantes congestionada, sem avançar quase nada. Esta tem sido a história da histeria do Brasil recente. Saudades de quando se podia sentar, falar de Ulysses, reformas, avanços e futuro.

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