Balança comercial: o grande problema não é o déficit

É verdade que a dinâmica da balança comercial brasileira tem sido extremamente negativa, em 2013, mas é preciso olhar à frente e entender que os efeitos da desvalorização cambial deverão manter uma tendência de recuperação para os fluxos comercias já contida nos dados de setembro. O quadro abaixo, com a desagregação das médias diárias dos principais itens da pauta exportadora e suas variações contra o mesmo mês do ano passado e contra o mês imediatamente anterior evidenciam que há mais dados a serem comemorados do que a simples observação do superávit de US$ 2,15 bilhões produzido no  período. Minérios cresceram a 3,6%, soja a 40,4% e petróleo  e derivados a 4,6% (sempre pela comparação das médias diárias).

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A questão principal a ser destacada, contudo, não é o  início da recuperação dos saldos comerciais, tampouco o recorde negativos do saldo quando considerado o dado acumulado no ano (-US$ 1,6 bilhão entre janeiro e setembro, ante superávit de US$ 15,7 bilhões em 2012). O movimento muito mais grave de esfacelamento do modelo de crescimento com poupança externa é o destaque. O ápice e o fundo do poço da balança comercial revelam problemas muito mais sérios do que a simples análise do saldo (que, evidentemente, é importante, mas não pode ser esgotada em avaliações superficiais, quase mercantilistas, baseadas estritamente na indicação do sobe e desce das exportações  líquidas de importações).

O grande desafio do Brasil é o crescimento e, para tanto, o estímulo à poupança doméstica e, consequentemente, ao investimento. Vou mostrar que este é o debate importante e que pode ser trazido ao topo da agenda, se houver disposição para realização de bons diagnósticos e coragem para elaboração de propostas de mudança dignas desse nome.

Explico-me melhor. A poupança externa pode ser entendida como a capacidade de crescimento do consumo, do investimento e  do gasto do governo, em determinado país, dada pela possibilidade de contrairmos financiamento com  o exterior. Em outras palavras, poupança externa é a própria necessidade de financiamento externa (o quanto precisamos importar ou consumir de serviços e bens produzidos por outras nações), que encontra cobertura suficiente originada nos capitais entrantes para o país. A forma de observar a evolução da poupança externa é tomar o déficit/superávit em transações correntes. Essa conta passou de um superávit de 1,8% do PIB, no último trimestre de 2004, a um déficit de 3,2% do PIB, no segundo trimestre de 2013 (já tendo atingido 3,6% do PIB em agosto, no acumulado em 12 meses). Em outras palavras, a poupança externa aumentou, no período, em cerca de 5,0 p.p. do PIB. No mesmo período, a poupança doméstica deteriorou-se e, quando comparamos períodos anteriores, observa-se o mesmo tipo de relação inversa entre poupança externa e poupança doméstica.

O que é peculiar, no caso mais recente, é que, debelada a inflação e criada a oportunidade para a consolidação de uma estratégia de desenvolvimento, resolvemos deixar a inércia trabalhar e preferimos tocar o barco sem sem pensar no amanhã. Conformamo-nos com o crescimento de curto prazo dado pela bonança externa. Veja a figura abaixo:

Poupança externa e poupança doméstica (dados trimestrais em % do PIB)

poupança

Fonte: IBGE e Banco Central. Elaboração –  Felipe Salto.

A geração de superávits em conta corrente, entre 2003 e 2007, ocorreu pela forte elevação dos preços das commodities exportadas pelo Brasil, na última década, sustentando o consumo doméstico. A sua redução e o agravamento do resultado no campo negativo até os picos atuais, por outro lado, foi possível graças à intensa entrada de capitais externos, com destaque,  inclusive, à melhora da qualidade desses fluxos.

Ocorre que a festa acabou. A bonança externa, que permitiu à absorção doméstica (gastos do  governo, consumo das famílias e investimentos) crescer muito acima do PIB, na última década, se exauriu e a nuvem negra voltou a cobrir nossas cabeças. Pessimismo engendra aversão ao  risco, desaceleração dos capitais entrantes para o país e, portanto, limitação à continuidade do avanço do déficit em  transações correntes. Não se trata de uma crise no balanço de pagamentos, pois,  como disse ao início, a desvalorização do câmbio (depois da autorização da presidente Dilma a que o BC pudesse voltar a operar com um regime de câmbio flutuante) ajustará as contas. O problema está na limitação ao crescimento  do PIB e ao crescimento da absorção doméstica. O Cristo Redentor não despencou, mas o Brasil também não decolou, como sugeriram as duas famigeradas capas da revista mais importante do mundo, respectivamente, em 2013 e 2009.

Com uma restrição externa mais dura, nos veremos fadados a um crescimento inferior a 3% do PIB, na próxima década, com a absorção doméstica crescendo também ao redor deste patamar (ou menos). Nos últimos dez anos, crescêramos 3,7%, em média, com a absorção avançando a 4,7%. Os brasileiros sentirão nos bolsos, no ajuste a ser observado nos salários reais e no  emprego  o custo da mudança. A tendência dos dados do Caged (que traz as informações oficiais sobre a evolução do mercado de trabalho) é de evidente deterioração.  Trata-se de uma questão de tempo para o desemprego, infelizmente, começar a figurar as capas dos jornais de domingo. E por que seremos expostos a isso? O que deu errado?

A era petista, que já dura 11 anos, negligenciou a importância de fomentar a poupança doméstica, a começar pela poupança pública. Prometeu  investimentos a 25% do PIB  e  entregará nada mais que 19% do PIB, ao final de 2014. Alimentou um discurso favorável à competitividade, à indústria nacional, ao emprego e à renda, na esteira do estímulo à infraestrutura, mas praticou o estímulo ao endividamento das famílias, ao consumo e à expansão dos gastos públicos.

A bonança externa parecia não ter fim. A China crescia a dois dígitos, a demanda reprimida era enorme e nós, produtores de commodities, nos víamos em posição extremamente privilegiada para ampliar nossos ganhos  na conta de comércio, essencialmente pelo estímulo gerado aos ofertantes dada a forte mudança de preços relativos  ou,  como são chamados, dos termos de troca. Animados com nossa aparente pujança, o capital externo veio faceiro financiar nossas importações de produtos manufaturados e  nossas viagens ao exterior. O déficit se agigantou e o jabuti subiu, paulatinamente, na árvore. Agora, lá de cima, nos acena alegremente.

“A festa acabou, o povo sumiu, a noite esfriou.” Foram muitos os que alertaram para a insustentabilidade de um modelo  baseado na produção alheia, na pujança externa, e não na solução dos dilemas domésticos. O governo não deu ouvidos. Adotou a estratégia do “quem não está comigo é contra mim”, tratou os críticos como aves de mau agouro e protagonizou uma crônica cujo final (desastroso) já estava pré-anunciado. Expandiu os gastos públicos acima das receitas, reduziu o superávit primário, adotou a contabilidade criativa para ocultar a farra fiscal, expandiu o  tamanho dos bancos públicos, às custas de mais de R$ 400 bilhões em dívida pública nova, fabricou receitas, promoveu desonerações ao setor produtivo sem fazer as contas dos custos a elas associados, manejou os índices de preços, interveio nas decisões da Petrobrás (o que causou o déficit observado na balança  de petróleo), enfim, semeou vento e, agora, colhe tempestade.

Em resumo, o desafio do Brasil não é simplesmente dar conta de estancar a sangria do déficit em transações correntes. Isso será devidamente corrigido pelo câmbio mais alto. A questão central é a reflexão sobre que país queremos construir e que nível de bem-estar social desejamos ser capazes de prover. Esse é o debate que importa. O déficit externo chegou ao limite e,  sendo  assim, considerando-se a ausência de poupança doméstica para substituir a expansão da poupança externa, estaremos fadados a voar com as galinhas, mais uma vez, desde que não façamos uma inflexão, para valer, a partir de 2015. Uma nação democrática é dona de seu destino e garante, pelo voto, a esperança da renovação, a oportunidade para instituirmos a mudança que tanto pregamos.

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