PIB do 2º tri: sonho de uma noite de verão

O resultado do PIB do segundo trimestre de 2013, conforme divulgado pelo IBGE, apontou um crescimento de 3,3% em relação ao mesmo trimestre do ano passado e de 1,5% na comparação com os três primeiros meses deste ano. É um bom resultado, mas longe de suscitar comemoração.

O Brasil tem uma renda per capita que é uma fração da renda dos países desenvolvidos. Isto é, estamos muito distantes de um nível de renda e riqueza que permitam ampliar o bem-estar, o consumo e a felicidade das pessoas de maneira perene. Mesmo com esse bom resultado, a média de crescimento do governo Dilma dificilmente ficará acima de 2%. Não há o que comemorar.

Figura 1: Dados abertos do PIB divulgados pelo IBGE para o segundo trimestre de 2013

PIB

Fonte: IBGE.

Os investimentos cresceram 9% na comparação com o segundo trimestre de 2012 e, ainda assim, representaram 18,6% do PIB, bem abaixo do nível de 24% a 25% que fora prometido pelo governo, ao início do mandato, e que poderia legar ao país a possibilidade de crescer sem pressionar a inflação. Na comparação com o primeiro trimestre de 2013, o crescimento dos investimentos (formação bruta de capital fixo) foi de 3,6%.

Do lado da oferta, o destaque ficou para a variação do setor agropecuário, que avançou 3,9% e 13%, nas comparações com o primeiro trimestre de 2013 e o segundo trimestre de 2012, respectivamente. A indústria também apresentou desempenho positivo a 2,0% e 2,8%, nas mesmas bases de comparação.

Tudo indica que este terá sido o melhor trimestre do ano. Não se deve expandir, no entanto, os resultados desse período para o restante do ano. A política monetária mais contracionista, corretamente implementada pelo Banco Central (ainda que tardiamente), com vistas ao controle da inflação, reduzirá os estímulos à demanda e, em paralelo, o consumo doméstico também será desestimulado pelo real desvalorizado em relação o dólar e pelas dificuldades de financiamento do déficit em transações correntes.

Em perspectiva histórica, se construirmos uma série das variações, por trimestre, em comparação com os mesmos períodos dos exercícios passados, a recuperação observada no segundo trimestre de 2013 mostra-se positiva, porém insuficiente para trazer o PIB a uma dinâmica de crescimento digna desse nome.

Figura 2: Variação real do PIB no trimestre em relação ao mesmo trimestre do ano anterior e média móvel da série de 4 em 4 trimestres

PIBhist

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

Não faltará discurso otimista, a partir dos dados do segundo trimestre de 2013, como ouvi ontem do Ministro Guido Mantega em evento organizado pela IstoÉ Dinheiro. Na visão oficial, tudo que de ruim aconteceu com o país, incluindo a inflação elevada e o crescimento baixo, é culpa de dois atores: os críticos pessimistas, que só querem o mal do país, e o Fed (autoridade monetária dos EUA). De ilusão, como diz o ditado, também se vive.

Na verdade, a culpa pelo baixo crescimento e pela inflação elevada é do governo federal. Ele é o responsável pela boa gestão da política macroeconômica, pela liderança nas reformas que poderiam ser iniciadas com o fim de ampliar a produtividade da economia, os investimentos em infraestrutura e o estímulo à poupança.

Acostumamo-nos a crescer com a chamada poupança externa, isto é, com o aumento do déficit em conta corrente financiado pelo resto do mundo. Agora, entretanto, não há mais entrada de capital externo suficiente para financiar a contento as nossas importações, os gastos com turismo e as necessidades de financiamento externa, de maneira mais geral.

Acostumamo-nos a crescer consumindo a produção de outros países, como se fosse sustentável, na presença de um Estado gastador e esquecemo-nos de tomar as medidas necessárias para aumentar a formação bruta de capital fixo. Basta observar a série histórica do investimento para constatar que continuamos aprisionados a um modelo que desperdiça, cada vez mais, as oportunidades para estimular de maneira perene a expansão do crédito, do consumo, da renda e da riqueza. A estratégia da dupla Lula-Dilma colocou a perder as conquistas do governo Fernando Henrique. Plantamos uma árvore frondosa, com a reforma da previdência, o ajuste fiscal, as metas para a inflação, a renegociação da dívida dos estados, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a abertura econômica, que agora termina com todas as folhas arrancadas e galhos quebrados.

Figura 3: Formação Bruta de Capital Fixo (% do PIB)

PIB_Hist_FBCF

Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

Finalmente, há um quadro de desconfiança interna e externa, que provavelmente levará o consumo e o investimento domésticos a uma dinâmica pior do que a observada no segundo trimestre. Mesmo que as exportações continuem contribuindo positivamente e de maneira crescente, na esteira da taxa cambial mais depreciada, que veio para ficar, o resultado líquido será negativo.

Em poucas palavras, o dado do segundo trimestre não passa de um sonho de uma noite de verão.

2 thoughts on “PIB do 2º tri: sonho de uma noite de verão

  1. “entretanto, não há mais entrada de capital externo suficiente para financiar a contento as nossas importações, os gastos com turismo e as necessidades de financiamento externa, de maneira mais geral.”

    Felipe,
    Você poderia esclarecer esta afirmação?
    Como não há entrada de capital externo suficiente?
    É verdade que o investimento estrangeiro direto não financia totalmente o déficit em transações correntes. Apesar do Brasil ainda ser um dos maiores receptores desta modalidade de investimento, a balança de petróleo ampliou demasiadamente o déficit em transações correntes. Mas há outras formas de financiamento, somando o investimento estrangeiro em carteira tivemos capital suficiente para financiar o déficit até então e, segundo as previsões do bcb, também teremos capital suficiente para financiar no resto do ano.

    abraço

    • Prezado,

      Os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) desaceleraram, enquanto o déficit em conta corrente se aprofundou, atingindo a marca de 3,4% do PIB no acumulado em 12 meses até julho. O IED, que era suficiente para financiar toda a conta corrente, passou a financiar entre 55% e 60% do déficit. É verdade que o capital de curto prazo substituiu uma parte desse arrefecimento, mormente, o investimento em renda fixa, após a saída do IOF. Entretanto, trata-se de uma piora da qualidade, isto é, da composição da conta capital e financeira. Além disso, apesar de ainda haver sobra no balanço de pagamentos, houve forte redução nos últimos meses. Em agosto de 2011, no acumulado em 12 meses, havia uma sobra de US$ 82 bilhões no balanço de pagamentos. Em julho de 2013, as sobras equivaliam a menos de 10% desse total.

      Abraços e obrigado pelo comentário.

      Felipe Salto

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