Editorial econômico do Estadão (24/08/13)

O déficit em conta corrente e a vulnerabilidade externa

 24 de agosto de 2013 | 2h 11

O Estado de S.Paulo

O déficit na conta corrente do balanço de pagamentos – de US$ 9 bilhões, em julho, US$ 52,5 bilhões, neste ano, e US$ 77,7 bilhões, nos últimos 12 meses, segundo o Banco Central (BC) – decorre mais de políticas erráticas do governo do que das circunstâncias desfavoráveis da economia global.

O déficit corrente, que em julho foi recordista, é estimado para 2013 em US$ 75 bilhões, pelo BC, e em US$ 80 bilhões, por agentes privados. Em sete meses, o desequilíbrio na conta corrente já supera o do ano passado.

Muitas decisões de governo afetaram as contas cambiais. A balança comercial, negativa em quase US$ 5 bilhões até julho e principal responsável pelo déficit corrente, piorou com os arranjos contábeis de 2012 (transferência para este ano do custo das importações de derivados de petróleo). Esses arranjos elevaram o déficit comercial de 2013 em cerca de US$ 5,6 bilhões.

O adiamento dos reajustes dos combustíveis estimulou o consumo de gasolina em detrimento do álcool e obrigou a Petrobrás a importar mais derivados. Em síntese, o governo preferiu camuflar a inflação, à custa da estatal e do balanço de pagamentos.

As cotações do dólar estimularam o consumo de importados e as viagens internacionais. Em julho, o gasto líquido com turismo foi de US$ 1,7 bilhão, 14,4% mais do que em julho do ano passado.

Os investimentos estrangeiros diretos (IEDs) de US$ 5,2 bilhões ainda são expressivos, mas financiaram só 57% do déficit corrente e a sua qualidade piorou: US$ 1,9 bilhão foi de empréstimos intercompanhias. Os investimentos estrangeiros em carteira destinaram-se principalmente a títulos de renda fixa (US$ 3,9 bilhões), o que se relaciona com o aumento da taxa básica de juros.

É possível que o pior momento da balança comercial comece a ser superado neste mês, avaliou o economista Felipe Salto, da consultoria Tendências, para a Agência Estado. A correção dos preços dos derivados, se ocorrer, também ajudará um pouco as contas cambiais.

Mas a deterioração das contas correntes ganhou proporções: o déficit corrente chegou a 3,95% do PIB, neste ano, ante 2,24% do PIB, em igual período de 2012. Déficits superiores a 4% do PIB são vistos como elevados pelos especialistas.

Isso torna mais difícil a recuperação da confiança na política econômica. E o pior seria repetir o mantra de que as reservas cambiais de US$ 373 bilhões bastarão para evitar o risco de uma crise cambial, no futuro.

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