A hora e a vez de uma oposição unida

País sério precisa de oposição séria, combativa e presente no debate nacional. Oposição que tenha discurso, propostas, programa, projetos, visões sobre os problemas do Brasil. Acima de tudo, precisa de oposição unida e que aponte caminhos.

O PSDB deu sua maior contribuição à nação, ainda no governo Itamar Franco, ao coordenar o Plano Real, pelas mãos do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Plano que, ao fim e ao cabo, engendrou a solução para o problema da hiperinflação no Brasil. Um legado sem precedentes, fruto de aprendizado, com os erros históricos, fruto da genialidade política necessária para articulá-lo, em momento tão adverso, e fruto das ideias dos argutos economistas associados à empreitada, em particular: Pérsio Arida e Edmar Bacha (figura).

Figura: Inflação mensal medida pela variação do IPCA (1980 a 2013)

Inflação - Plano Real

Fonte: IPEADATA. Elaboração – Felipe Salto.

O presidente Fernando Henrique Cardoso elegeu-se, sim, na esteira desse processo, e alçou o PSDB à Presidência da República, em um período de oito anos que mudaram o Brasil para melhor: aumento da renda real, reformas estruturantes, investimentos, abertura comercial, mudanças na lógica de atuação do Estado (de provedor direta de bens e serviços a regulador e indutor do crescimento), privatizações, criação das agências reguladoras, ajuste fiscal de fato e concepção de instituições econômico-fiscais que levariam à conquista da credibilidade internacional, nos anos que se seguiram, com a consequente ampliação das taxas de crescimento econômico e do bem-estar social. Isso explica o papel central do PSDB na conjuntura política hodierna.

Diante de um modelo de desenvolvimento intervencionista, que tem logrado resultados negativos, no campo do crescimento econômico e do controle inflacionário, a visão alimentada pelo PSDB, no passado, ganha sobrevida e espaço no campo do embate político e do embate político-eleitoral, principalmente. As teses e ideias para confrontar o modelo político e econômico do PT já existem, a rigor, mas demandam protagonistas que as encabecem. Para isso, é preciso de um partido que saiba para onde quer caminhar e para onde deseja levar a oposição. O exercício do poder do contraditório não é trivial, exige compromisso com lutas difíceis, exige inteligência para remar contra a maré do otimismo exacerbado e da miopia em relação ao timing dos fenômenos negativos já em curso na economia nacional.

A inflação alta é o principal problema a ser atacado, ao lado do baixíssimo crescimento econômico, que conduzirá a um mercado de trabalho pior, cada vez mais, ao  contrário do que a fotografia atual do emprego nos revela, é claro, porque as relações entre as variáveis econômicas não é imediata, muitas vezes. O mercado de trabalho em situação positiva, hoje, não é fruto do aumento do tamanho do BNDES, da dívida pública, dos gastos correntes e da incompetência no manejo da política macroeconômica. É fruto, em verdade, das mudanças na matriz produtiva, que ampliou a participação de serviços e reduziu os efeitos esperados da deterioração da indústria – fenômeno que que segue firme e forte. Dizer isso não é minimizar os fatos, mas encarar a realidade como ela é. Pressupor que o eleitor não entenderia essa explicação é para os fracos. Os fortes precisam, em verdade, mostrar, ao máximo, os pontos fracos da estratégia corrente, já que é esta estratégia perdedora (se assim ficar provado para o eleitor mediano brasileiro) que, substituída por uma promessa crível de mudança para o bem, a alavanca para a vitória.

É nesse âmbito que o PSDB não pode mais perder tempo com picuinhas, para falar o português claro. Picuinhas não são para partidos grandes, são para quaisquer outras agremiações, menos para estas, as grandes, aquelas que já estiveram ou estão no poder, que têm história a contar e, principalmente, que têm uma sacola enorme cheia de votos a legitimá-las. PSDB e PT, portanto, são os partidos que estarão na linha de frente. Resta saber se o primeiro estará tão preparado quanto o segundo já está para mostrar o que fez e o que pretende fazer. Nesse cenário, Serra, Aécio, Alckmin, FHC e seus correligionários precisarão estar unidos.

O lugar de José Serra, que foi governador, prefeito, ministro, deputado e senador, tendo disputado duas eleições à Presidência da República, é exatamente no centro do PSDB e da oposição que ajudou a construir. É ali que ele poderá ajudar a fazer de Aécio Neves presidente da República e é nessa direção que o partido precisa caminhar. O resto é resto. Aécio, Alckmin e FHC sabem disso. Serra, idem. Haverá espaço para construção política conjunta, ampla e coerente com os valores e os princípios historicamente defendidos pelo PSDB? Haverá grandeza por parte das menores e maiores lideranças desse partido ou seguirão batendo cabeças, até que outra legenda ocupe seu histórico papel de líder do pensamento e da ação política de oposição?

Um partido que fez o Real, um partido que liderou mudanças amplas no pacto federativo e na gestão fiscal (renegociação de dívidas estaduais impagáveis, Lei de Responsabilidade Fiscal, metas de superávit primário e tantas outras), que universalizou o acesso à educação básica e concretizou o Sistema Único de Saúde (SUS), que teve à sua frente verdadeiros heróis da causa democrática, como Covas e Montoro, passará a vez para o próximo jogador?

Duvido. Acredito no poder de conciliação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e entendo que a oposição encontrará uma nova oportunidade de hastear suas bandeiras e de fazer aquilo que nunca deveria ter se eximido de fazer: lutar contra as ideias do estatismo e do dirigismo estatal político e econômico e apontar o caminho da social democracia e da igualdade de oportunidades como a saída para o Brasil. Torço por isso.

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13 thoughts on “A hora e a vez de uma oposição unida

  1. Acredito no talento, competência e patriotismo do presidente Fernando Henrique, que liderou o país em um momento difícil. Mas, tenho dificuldade em apoiar quem tem secretário particular do Endireita Brasil ou quem acha quem flerta com o conservadorismo social, trazendo para a campanha eleitoral temas como aborto, casamento gay. O país precisa de uma boa oposição, mas se for conservadora, inclua-me fora.

    • Professora, concordo com sua posição. Também refuto as movimentações do partido em direção à direita conservadora. O PSDB tem uma nova oportunidade de resgatar ideias e valores que estiveram presentes em sua fundação. Tem, ainda, a oportunidade de apresentar um novo programa para o desenvolvimento do Brasil, que efetivamente eleve as possibilidades de crescimento, mantida a inflação sob controle a possibilidade de preservar e ampliar as conquistas sociais. Concordo, portanto, inteiramente com sua posição. Obrigado por comentar.

      Felipe Salto

  2. Eu, particularmente, acho que o PSDB não tem mais nenhuma condição de ser oposição ao PT.

    Como ambos são sociais-democratas, e defendem praticamente os mesmos valores, o PSDB não tem coragem de atacar o populismo petista, que tem se mostrado bastante forte junto ao povo, particularmente o mais humilde e iletrado.

    Oposição às idéias petistas (e PSDBistas, já que, como é alardeado em tempos de eleições coisas como Bolsa Família nada mais são do que a incorporação num único projeto vários benefícios psdbistas), DE FATO, seriam medidas que visassem à redução da carga tributária no Brasil, DIMINUIÇÃO DOS BENEFÍCIOS SOCIAIS (que, como vemos na Europa atual, custam muito mais do que os benefícios que geram, tornando insustentável em crises), privatização EFETIVA (sem criar oligopólios privados que tem os mesmos defeitos das estatais), incentivo à iniciativa privada e ao empreendedorismo, redução da burocracia nacional, desmontagem de sindicatos, etc.

    Não vejo NENHUM partido, atualmente, em condições de montar um programa de governo com estas bases. Aparentemente, nos tornamos uma grande Argentina, em que todos os candidatos tem Perón como inspiração política.

    Então, pelo visto, o PT deverá se consolidar como partido hegemônico em pouco tempo.

  3. Também sou eleitor do PT e também achei muito bom o texto. Acho que existe uma parcela da direita que tem muito a contribuir e acho que sempre haverá espaço para discussão e boas propostas. O que não precisamos é de Malafaias, Felicianos e outras aberrações políticas.

    • Caro Leonardo, gostaria apenas de registrar que o PSDB não é um partido de direita. Nada demais seria se o fosse, muito pelo contrário, mas de fato não o é.
      Além disso, foi ele, o PSDB, que preparou a terra e a semeou durante 8 anos, a fim de que novos e melhores frutos brotassem no Brasil. Infelizmente, o nosso megalomaníaco e egocêntrico ex-presidente Lula, que apenas colheu bastante esses frutos, entitulou-se o lavrador que trabalhou na terra, responsável por eles. Todos sabemos que isso é mentira! Distorção dos fatos.
      Não tenho partido, tampouco participo diretamente de qualquer núcleo político.
      Nunca votei no PT, tampouco pretendo fazê-lo, mas tinha alguma expectativa, há anos, que esse partido contribuiria para a melhora dos níveis éticos do Brasil, especialmente no modo de o Estado operar a coisa pública.
      Mas o que se viu foi exatamente o oposto, e disso nem precisamos falar ou citar exemplos (tomaria a noite toda).
      Com o PT no comando, ainda mais sem oposição, o Brasil continuará com os mesmo 100 anos de atraso que carrega.

    • Obrigado, Leonardo. Não me considero de direita. Entendo que a agenda do PSDB é a agenda da social-democracia, da igualdade de oportunidades, das medidas estruturantes no campo econômico e do fortalecimento dos mercados como mecanismo para o progresso. Entendo que o Estado tem um papel crucial na liderança de todo esse processo.

      Abs,

      Felipe Salto

  4. O texto é simples, lúcido, objetivo e inteligente! Não obstante, parece que o PSDB não enxerga o óbvio. Do outro lado, perfeitamente forte e articulado, à despeito da ampla desmoralização sofrida por seus principais representantes, segue o PT, criador de um plano de poder eterno. O PT não deixará o poder federal de jeito algum e as suas garras serão bem reveladas na remota hipótese de alguém ameaçar tirá-lo. O PT veio para ficar, infelizmente! O Brasil está, sim, já envolvido em ditadura camuflada, a exemplo da Venezuela, e é isso que o seu povo de fato merece, uma vez que é covarde, egoísta, passivo e submisso. Enxerga, mas finge que não vê. Escuta, mas dirfarça como se não fosse com ele. O povo brasileiro, a começar pelas elites, permite que o PT, e muitos outros partidos que dançam a mesma música, sigam fazendo o que muito bem entendem da nação. Uma pena …

  5. Agradeço a todos pelos comentários. Gostaria de dizer que não vejo o PSDB como um partido de direita. O PSDB é um partido social-democrata, que carrega no DNA a luta pela democracia e pela igualdade de oportunidades. A agenda mais liberal, no campo econômico, coadunou-se com a agenda social, uma vez que o controle da inflação conferiu aos mais pobres, principalmente, um ganho enorme de renda real, da mesma forma que a expansão dos programas sociais, sob Lula (ver trabalhos de Marcelo Neri, em especial: “O Real do Lula”). A democracia consolidou-se, no Brasil, e o PSDB teve importante papel nesse processo. O desafio, agora, é olhar para frente e trazer um programa que, ao mesmo tempo, não contradiga o passado e seja capaz de conceber novas soluções aos velhos e aos novos problemas.

    Felipe Salto

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