Juros não subirão tão cedo

É equivocada a percepção de que teria havido uma mudança nas recomendações de política econômica desses três economistas – Belluzzo, Nakano e Delfim. Os três são rigorosamente membros de uma escola denominada “desenvolvimentista” ou, simplesmente, keynesiana ou novo-keynesiana.

O artigo do Prof. Nakano, hoje, para o Valor, é simbólico ao recomendar que: “(…) se o governo não está disposto a fazer uma ‘contração fiscal’ que mereça este nome não resta senão o Banco Central elevar a taxa de juros”. Sabemos algo sobre a propensão deste governo a fazer ajustes. Sabemos, ainda, que quando diz que faz ajuste, na prática, saca o estojo de maquiagens ou o kit de “alquimia” (termo utilizado pelo Delfim há pouco tempo para explicar as pataquadas do Tesouro e da Fazenda, sob a liderança de Augustin e Mantega), escrevendo novos capítulos da chamada contabilidade criativa, reconhecida internacionalmente pelo desequilíbrio e perda de confiança legados à economia nacional.

A seu modo, Delfim também explicita, em artigo publicado no Valor, que, se preciso for, o BC aumentará juros com a mesma “tranquilidade” com que, hoje, mantém a taxa estável. Para mim, nada disso é suficiente para alterar a expectativa de que os juros continuarão onde estão. Vamos ter mais desonerações, mais reajustes postergados e mais intervenção, mas não mais prudência.

Amanhã, o dado do IBGE mostrará parte dos resultados colhidos pelo governo com a “lambança”: inflação superará, pelo IPCA, no acumulado em 12 meses até março deste ano, a margem superior da meta de inflação fixada pelo CMN, devendo ficar em 6,59%. O Prof. Nakano está correto ao defender o ajuste fiscal para balizar uma estratégia que, a médio prazo, favoreça a expansão da taxa de poupança. Entretanto, não me parece provável que o conselho será ouvido pela presidente, pelo ministro da Fazenda ou pelo presidente do Banco Central.

O país não atravessa problemas de solvência externa, tem nível elevado de reservas cambiais, possui uma posição favorável do ponto de vista da avaliação de risco (ainda que no curto prazo sua situação tenha piorado em relação à média dos emergentes) e tinha tudo para iniciar um movimento de reformas mais estruturais, que nos levassem à ampliação da taxa de formação bruta de capital fixo, isto é, dos investimentos. Entretanto, optou pela intervenção como solução salvadora para controlar preços, na marra, e produzir crescimento, como quem produz pãozinho fresco na padaria todas as manhãs e tardes. Há quem argumente que não há movimentos preocupantes, pois a inflação continua controlada e dentro da banda (vejamos, até amanhã, com o dado de março), mas é preciso lembrar que o crescimento econômico foi de apenas 0,9%, no ano passado e, ainda assim, a inflação ficou em 5,8%.

A comparação da trajetória dos preços médios da economia, nos períodos FHC, Lula e Dilma, pura e simplesmente, leva a uma conclusão precipitada de que a inflação estaria sob controle, já que as taxas de variação dos índices de preços, de fato, foram mais elevadas sob FHC. Entretanto, há que se comparar os períodos em sua integralidade, lançando mão da observação das taxas de crescimento mundial, dos níveis de endividamento externo, dos patamares de juros reais, do próprio crescimento doméstico, sem mencionar que FHC, ainda no governo Itamar, trouxe a inflação da volatilidade e do descontrole, com oscilações em níveis elevados (picos de 80%/mês no final da década de 1980), para a estabilidade e a previsibilidade.

Estamos em um mato sem cachorro. Os conselheiros do governo têm história e são economistas eméritos, respeitáveis e, mesmo defendendo que os juros reais foram corretamente reduzidos, sinalizam, principalmente o Prof. Nakano, que sem ajuste fiscal será difícil manter os juros no atual patamar sem pressionar ainda mais a inflação. A presidente dará ouvidos aos conselhos?

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s