Contas externas deterioradas: desenvolvimentismo à brasileira

O resultado das contas externas brasileiras, neste início de ano, não são positivos. Ainda que estejamos distantes de uma situação de insolvência ou crise no balanço de pagamentos, dado que os fluxos de capital têm sido suficientes para financiar o déficit gerado na conta corrente (resultado líquido de todas as saídas e entradas de recursos no País decorrentes de operações comerciais – balança comercial – de pagamentos ou recebimentos de juros,  de fluxos de outras rendas diversas e de transferências unilaterais e gastos dos brasileiros em outros países), o quadro é preocupante.

Em verdade, os investimentos estrangeiros diretos (IED) estão estagnados, quando observamos o total acumulado nos últimos 12 meses, até janeiro, enquanto o déficit em transações correntes (TC) segue se expandindo. Isto é, as chamadas necessidades de financiamento externo (NFE) começaram a crescer mais rapidamente, no acumulado em 12 meses, evidenciando um quadro de pressões altistas sobre a taxa cambial, no médio prazo, reflexo de uma provável aversão ao risco, no bojo dos investimentos externos entrantes para o Brasil que, por sua vez, decorre do intervencionismo e da ausência de previsibilidade no novo regime cambial brasileiro. O quadro abaixo, que foi extraído da nota de setor externo  divulgada, nesta sexta (22 de fevereiro),  pelo Banco Central, deixa claro o movimento de piora das contas externas. Acesse a nota e as tabelas clicando aqui.

Quadro 1: déficit na conta corrente, fluxos de investimentos externos e necessidades de financiamento (isto é, conta corrente menos investimentos externos)

Sem título

Fonte: Banco Central do Brasil. Nota de setor externo de janeiro de 2013.

O quadro torna-se mais grave quando desagregamos a conta corrente e observamos o que vem ocorrendo na balança comercial brasileira. Em verdade, temos piorado nosso saldo comercial, dentre outros motivos, pela forte deterioração observada na balança do  petróleo, isto é, pela redução das diferenças entre as exportações e importações de petróleo bruto e derivados.

É muito claro o papel negativo exercido pelo intervencionismo também neste ponto. A Petrobras está em seu pior momento, talvez, nos últimos 10 a 15 anos. Já há indícios de atrasos no pagamento de fornecedores, por exemplo, sem mencionar o péssimo desempenho de suas ações na bolsa de valores. Trata-se da dilapidação do patrimônio nacional, a mais evidente face dos riscos que se podem  contratar ao empreender uma política gerida pelo atraso, pela  intervenção, pela decisão de curto prazo com base em objetivos escusos -controle de preços por meio de postergação de reajustes, para destacar o principal deles.

O quadro abaixo evidencia os movimentos do saldo na balança comercial, também para o acumulado em 12 meses:

Quadro 2: Saldo comercial acumulado nos últimos 12 meses

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Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração – Felipe Salto.

A análise  das contas externas brasileiras é crucial para avaliar a capacidade de crescimento do país a médio prazo. Como se sabe, nossa poupança doméstica é baixa e temos nos alimentado, basicamente, da expansão do déficit na conta corrente, ou seja, da chamada poupança externa, que sustenta nosso consumo doméstico (privado e público) com o crescimento de outros países, em detrimento da nossa própria expansão produtiva. Ao abrirmos mão da austeridade nas contas externas, isto é, da responsabilidade de, ao menos, garantir o financiamento adequado dos saldos em conta corrente, estaremos legando ao país possibilidades ainda mais reduzidas de crescimento não-inflacionário.

Em suma, dentro da mediocridade de um modelo  calcado na expansão desmedida da exposição externa, temos conseguido produzir resultado ainda mais ultrajante: caminhamos na direção da redução dos saldos do balanço  de pagamentos, da deterioração da balança comercial e da piora no financiamento externo. Não só negligencia-se a tomada de medidas em prol da expansão do crescimento potencial, via expansão da poupança doméstica, como se abre mão do  único canal que vem sustentando o trôpego crescimento do PIB – o  déficit em conta corrente financiável.

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