Um luta que se faz com amor (Felipe Salto, 27/12/12)

Cabe ao PSDB a liderança de um processo que começa no fortalecimento e na união, por meio da criação de um novo discurso.

O PSDB protagonizou uma oposição frágil, nos últimos dez anos, por dois motivos: a) ausência de compromisso com o legado construído pelo governo FHC e b) incompetência para construir um discurso único, defendido de maneira firme, contundente, confiante e coordenada. Olhar para trás ajuda a traçar a rota para o futuro, mas é essencial pensar diferente, trazer para a linha de frente as jovens lideranças que têm despontado no partido, como Bruno Covas, Eduardo Leite e tantos outros que poderia citar, incorporando-as à força dos tucanos históricos, que fizeram o partido nascer e crescer. A alternativa às políticas e valores defendidos pelo PT começou a florescer, mas a desunião ainda é o obstáculo central a superar. E, para isso, é preciso ter algo pelo que lutar, algo que defender, algo com que se estabeleça um compromisso efetivo, duradouro, marcado pela lealdade.

A tarefa de enfrentar uma presidente bem avaliada, que já cumpriu 50% de seu mandato e segue sustentando resultados positivos para a sociedade, apesar da equivocada estratégia adotada, como mostraremos, é árdua e exige coragem, preparo e lealdade, isto é, união em torno de um compromisso e de um discurso bem fundamentado. Exige, ainda, mobilização, enraizamento social e aproximação.

Há um fato intrigante, mas cuja explicação pode carregar a pista central para o caminho a ser seguido pelo PSDB na formulação de seu novo discurso. Em dois âmbitos cruciais, na vida do brasileiro, o resultado do governo Dilma, até aqui, tem sido extremamente positivo: emprego e renda. O crescimento da renda, já descontando a inflação, poderá ficar, em 2012, entre 3% e 4%, em relação a 2011. O desemprego, por sua vez, deverá fechar 2012 a 5,5% (em média).

O primeiro desafio é mostrar que isso não resulta das políticas correntemente adotadas, ainda que sejam contemporâneas a esse resultado. O presidente Lula e a presidente Dilma têm colhido, ainda, os resultados de um processo de crescimento econômico proporcionado pela solução do problema inflacionário e pelo fechamento das principais “torneiras” no campo fiscal. As privatizações foram um instrumento importantíssimo de promoção de eficiência e de ajuste fiscal. Tirou-se um peso das costas do Estado e, portanto, da Sociedade. O PT, agora, copia os tucanos, ainda que de maneira envergonhada e pouco profissional, mas copia (a privatização dos aeroportos, com todas as trapalhadas, é o exemplo mais patente).

O Plano Real (ainda no governo Itamar) e as mudanças institucionais promovidas pelo Banco Central e pelo governo federal, no período FHC, plantaram uma árvore frondosa, que deu frutos por muitos anos, mas que foi pouco regada, podada e cuidada pelo PT. Denominado de “herança maldita”, pelo presidente Lula, o conjunto de políticas adotadas pelo seu antecessor – o PROER, a renegociação da dívida dos estados e municípios, a Lei de Responsabilidade Fiscal (lei complementar nº 101/2000), a criação de um arcabouço de políticas macroeconômicas pautadas na austeridade fiscal, no câmbio flutuante e nas metas para a inflação (o chamado “tripé macroeconômico”), a criação do “Bolsa Escola”, a universalização do ensino básico e tantas outras ações – legaram ao país a possibilidade de crescer com estabilidade, ainda que a taxas contidas, dada a estagnação do processo de reformas.

Fomos capazes de fazer avançar a taxa de crescimento econômico do Brasil, entre o período FHC e o período Lula, de 2,3% para 4,1%, mesmo na ausência da continuidade do processo de mudanças que engendrassem o aumento da produtividade e dos investimentos em infraestrutura – motores do desenvolvimento (o que qualquer economista aprende nos primeiros anos de estudo).

A verdade é que, por conta da herança bendita que recebeu – uma árvore repleta de frutos – o presidente Lula deixou que vigorasse no país um modelo de crescimento baseado no aumento da exposição externa e não lutou para ampliar a poupança o investimento doméstico. Em bom português, crescemos motivando o consumo acelerado baseado na produção de outros países. Aumentamos, portanto, nossa dependência da economia mundial e reduzimos a participação da indústria no PIB. Prejudicamos o setor produtivo, mas, concomitantemente, continuamos cada vez mais confiáveis e transformamo-nos em destino certo para o capital estrangeiro, graças à evolução institucional e econômica (estabilidade de preços) já mencionada.

Os dólares entrantes sustentaram a expansão do resultado negativo nas contas externas, possibilitando, assim, o maior crescimento observado no período Lula, mesmo fazendo menos pela produtividade e pelo investimento. Até agora, não fosse o déficit em transações correntes financiável que vimos apresentando nos últimos anos, a poupança total seria muito menor e, certamente, estaríamos crescendo ainda menos.

Em seu segundo mandato, o presidente Lula não seguiu apenas colhendo frutos, entretanto. Passou a arrancar, também, as folhas e a quebrar os galhos daquela árvore já não tão frondosa… De herança bendita e de bons fluidos e fluxos externos, já bastava para ele e para os seus.

Decidiu inovar! Pretendeu implantar, no Brasil, o “novo desenvolvimentismo”, mas escolheu apenas alguns de seus eixos para compor o que ficou conhecido como o “novo mix” de políticas macroeconômicas. Relaxaram-se os resultados fiscais, abandonaram-se as metas de inflação e flexibilizou-se o compromisso com a flutuação do câmbio. Desde então, e com a eleição de uma presidente-economista de formação heterodoxa, isto é, pautada na corrente de pensamento econômico alternativa à estratégia recomendada pela maioria dos economistas, o Brasil passou a caminhar por uma incerta e perigosa via: a do crescimento baixo com inflação elevada. Em 2012, vamos crescer 1% (ou menos), mas a inflação ficará entre 5,5% e 6,0% (a meta é 4,5%, com um teto máximo de 6,5%, vale lembrar).

Dilma deverá sustentar uma taxa média de crescimento inferior àquela deixada por FHC. A conta deverá ser apresentada ao próprio PT, que executou um programa claramente intervencionista, destruidor de instituições regulatórias e afeito a medidas de curto prazo, focadas no consumo. O discurso do crescimento, entretanto, assumido com força por Dilma, poderá se transformar em seu algoz. É aqui que a oposição tem de entrar, abrindo caminho para a construção de uma trincheira importante. Na verdade, de um espaço central, onde tem conhecimento, história, realizações e propostas a apresentar. Que não se perca mais tempo!

O atual governo entende que a depreciação forçada do câmbio, a utilização exacerbada da política fiscal (BNDES expansionista, aumento de gastos e desonerações tributárias) e o compromisso com juros baixos e crescimento elevado seriam os ingredientes do “novo mix” ou, como definiu o Ministro Guido Mantega, em recente artigo para o jornal Valor Econômico, da “nova matriz” da política macroeconômica. Equivoca-se, no entanto, ao fixar muitos objetivos para poucos instrumentos existentes. Na prática, migramos para um regime em que a inflação controlada e baixa, o crescimento econômico, a taxa de câmbio e a taxa básica de juros passaram a ser objeto de fixação de metas pelo governo.

A política fiscal vem pagando a conta pela escolha de tantos objetivos, isto é, a sociedade vem pagando um preço alto por essa aventura do PT e o resultado prático é conhecido. No curto prazo, bate-se o bumbo em torno do nível histórico de desemprego e do crescimento pujante da renda. No médio e longo prazo, o horizonte é cada vez mais sombrio. Tudo indica que há defasagem entre a decisão de demitir e a dinâmica da economia, pois os empresários têm custos elevados para abrir mão de pessoal, contratar e treinar, em particular, no Brasil. Assim, só tomam a decisão de reduzir o quadro quando a confiança na economia efetivamente se reduz. Além disso, o setor de serviços, principal motor da economia doméstica, vinha ainda se sustentando, pelos dados abertos do PIB, mas, no último dado trimestral, a situação se alterou e também este componente passou a cambalear. Se o processo se mantiver, a tendência é que o desemprego cresça.

Eis o ensaio de uma oportunidade para que o PSDB apresente seu discurso alternativo.

A questão é: qual o discurso que o principal partido de oposição do Brasil terá a apresentar se e quando essas oportunidades se concretizarem, como acredito que acontecerá? Estará preparado para montar o cavalo que passará selado bem na sua frente? Certamente, partidos menores e suas lideranças já estão pensando nisso. Basta olhar para os lados e identificar: Marina Silva e Eduardo Campos.

O PSDB tem de defender um Estado eficiente, um Estado que passe a contribuir para o crescimento. Tem de tratar do tema da corrupção sob esse ponto de vista e não dizendo que os petistas são os “diabos” e os tucanos são os “santos”. É preciso mostrar à sociedade o quanto dela é extraído por conta da corrupção e da ineficiência de um Estado “obeso”, que só faz alimentar uma máquina inchada, através de programas de investimentos vazios em obras e abundantes em maquiagem contábil.

O PSDB é o partido que fez as privatizações da maneira correta. Seu legado para a Economia é importantíssimo e compreendido pela Sociedade, quando divulgado de maneira adequada. O controle inflacionário nada mais é do que o aumento do poder de compra do salário dos trabalhadores. As novas gerações precisam saber dessa verdade, dessa conquista, desse passo crucial dado pelo nosso país em direção à consolidação de uma economia estável e confiável aos olhos do resto do mundo e dos próprios brasileiros.

O partido que conseguiu promover esses avanços é, também, o partido que conseguirá construir uma estratégia para dar o passo que o PT não deu: promover o crescimento econômico sustentado. Essa é a tese que deveria passar a ser defendida pelos tucanos.

A este objetivo fulcral, devem ser acopladas outras metas: ambientais, sociais e políticas. Há uma miríade de pessoas dispostas a colaborar com um projeto que não seja excludente, mas, sim, capaz de somar, de trazer a novidade e de articular para que conviva com o resgate do passado, dos valores fixados por Mário Covas e Franco Montoro na fundação do PSDB. O velho e o novo têm de conviver em prol de um objetivo maior, de uma reconstrução prática do partido.

Finalmente, toda a estratégia terá de ser constantemente permeada pela ação de comunicadores capacitados a enxergar formas inteligentes de criar bandeiras fáceis de replicar nos discursos dos tucanos de todas as plumagens. O vereador do PSDB, em uma pequena localidade, tem de ter diretrizes para incorporar ao seu discurso, assim como o senador ou o deputado. A profundidade e a necessidade de adaptar esse discurso serão definidas caso a caso, evidentemente, mas a base, o alicerce a sustentar todos os militantes e políticos do partido tem de ser o discurso uníssono.

Não há mais espaço para bicadas mútuas, fogo amigo e bater de cabeças. Chegou a hora de estabelecer uma dinâmica de união e de compromisso, possível apenas sob a liderança de alguém que tenha legitimidade para estabelecer um norte e convocar os demais para rumar em direção a ele. Fernando Henrique começou a protagonizar esse processo, mas não é apenas dele essa prerrogativa e esse dever. As rédeas podem ter sido puxadas pelo presidente de honra do PSDB, mas os grupos que se encastelaram na legenda têm de ser desmontados, de baixo para cima, com coragem e compromisso. Não há lealdade maior do que aquela estabelecida entre o militante e o partido, entre o político e o partido. No PSDB, há lealdade, mas em relação a pessoas. “O grupo do Alckmin”, “o grupo do Serra”, “o grupo do Aécio”…

Ora, chegou o momento de termos o “grupo do PSDB”, de termos tucanos inteiros e não meios tucanos. A briga com o adversário exigirá formulação de ideias, mas, talvez principalmente, demandará compromisso de vida com uma luta muito maior, fundamentada na mobilização, na lealdade a princípios e valores comuns, a objetivos maiores e não apenas às disputas internas.

Que esta reflexão não seja interpretada de maneira ingênua. Estamos cientes da dureza do processo de construção político-partidária, mas sabemos, também, da prioridade de sair das tocas e partir para a luta que realmente vale a pena.

Mário Covas, quando da fundação do PSDB, proferiu o seguinte discurso: “(…) Se não for possível o sabor do fruto, ao menos que nos sobre o aroma da flor. Se não pudermos contar com o aroma da flor, que nos sobre pelo menos a beleza do orvalho sobre a folha. Mas, se nem isso for possível, que nos fique o vigor, a multiplicação contida na semente, assim como a esperança será o nome deste partido que nasce hoje. (…) A esperança que é um fato dinâmico, uma luta constante, a luta que se faz com amor, o amor que se faz com luta, aquilo que, afinal, ao lado do povo brasileiro, e por ele conduzido, este partido representará na história presente e futura deste país.”

É urgente que o PSDB abrace essa luta! E abraçá-la, que ninguém se engane, significará: formular um discurso com fundamentação técnica e que possa ser transmitido de maneira simples e direta, mobilizar o partido em prol desse objetivo e criar laços de lealdade maiores em relação a este novo partido, em substituição a compromissos menores.

Será algo tão genuíno, que as pessoas serão atraídas não pela novidade vazia, mas pela inspiração, pela confiança, pelo compromisso, pelo desejo de ajudar a construir esse projeto bonito, pelo qual valerá a pena doar uma vida inteira!

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