Novo? Sei …

Em Diadema, Lula pregou, no último final de semana, a manutenção da ordem, com um bordão que já usara na campanha de 2006, “não troque o certo pelo duvidoso”, comparando “o novo” a algo similar, nas palavras dele, à experiência que o Brasil teve com “Collor” (aliado de seu governo e da presidente Dilma). Em São Paulo, o tom do discurso do oráculo petista foi ligeiramente distinto. Vejam, a seguir, conforme trecho extraído da reportagem publicada pelo Estadão – “Lula falou então de Collor, senador pelo PTB, aliado do governo do PT: ‘Não foi prefeito, não foi governador e não foi presidente. Não conseguiu cumprir o mandato. As pessoas precisam aprender a criar vergonha e cumprir o mandato’. Collor renunciou à Prefeitura de Maceió em 1982 e ao governo de Alagoas em 1989 para disputar a Presidência.”

Trata-se de um camaleão desnorteado, que transita do vermelho ao verde, passando pelo azul e o amarelo, sem o menor puder, sem a menor preocupação com a ética e a coerência. Hasteia, por todos os cantos onde passa, as bandeiras de uma política antiquada, onde líderes populistas concedem a si próprios o dever e o direito de governar os interesses do povo, dirigindo suas vidas e manipulando suas esperanças.

Lula presta um desserviço à política, tão desacreditada pela maioria dos brasileiros. Ao negligenciar a importância de defender ideias, de ser coerente, de reconhecer a importância da oposição, de enxergar para além do próprio umbigo petista, o ex-presidente torna-se cada vez menor para a história. Não foi um estadista, não foi um líder transformador, não promoveu reformas e mudanças. Surfou bem uma onda positiva, o que é mérito dele, de seu partido e de seu governo. E só.

Agora, já há algum tempo sem mandato, denigre a imagem da política, acusando adversários de serem sedentos pelo poder, quando ele próprio parece ser incapaz de deixar o país seguir em frente. Julga-se maior do que é. Imagina-se detentor da verdade, do conhecimento e da capacidade singular e exclusiva de governar para os pobres, enquanto seus adversários seriam meros representantes dos interesses “das elites”. Basta assistir aos programas de seu candidato, em São Paulo, para constatar como esse tipo de argumentação persiste, contrariando a verdade dos fatos.

Chegou a hora de mudar. Há um sentimento de repulsa, na sociedade, com relação aos partidos e à política institucional. Talvez o ápice dessa dinâmica leve a uma inflexão nos partidos e na política.

Isso nada tem a ver, no entanto, com o que se tem chamado de “novo”, em São Paulo, pelo PT, que traz consigo, como mostrei acima, os mesmos anseios de um padrinho obstinado pela busca incessante do poder. Pensar novo é outra coisa. Marina Silva, por exemplo, ao angariar 20 milhões de votos, na última eleição, com um discurso voltado para a sustentabilidade, bem diferente do discurso-padrão, tangenciou o “novo”. Algumas mobilizações, aqui e acolá, começam a apontar também nessa direção (como a que ocorreu, ontem, em São Paulo, na Praça Roosevelt).

De todo modo, há um longo caminho de reflexão e de construção coletiva pela frente, que nada, absolutamente nada, tem a ver com a disputa eleitoral deste ano. Tem a ver, na realidade, com mudanças estruturais na ordem dos partidos e da política.

A construção desse novo caminho não passa pela liderança de um “camaleão desnorteado” que se julga maior do que realmente é (vale assistir à entrevista do fundador do PT, Chico de Oliveira, ao programa “É Notícia” da “RedeTV!” – 21/10, disponível neste link). Isto é, tal construção passa muito longe do uso eleitoreiro (uma vez que a carapuça “do novo” serve, em São Paulo, mas não serve na cidade vizinha) que se tem feito do argumento da mudança e da renovação.

Esse movimento em busca do novo passa pela construção de novas organizações partidárias, mais integradas à sociedade, atentas aos novos mecanismos de mobilização, comunicação e ação política. Passa, em última análise, por uma revolução no jeito de fazer política. A despeito de Lula, chegaremos lá.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s