As urnas e a busca de uma falsa redenção

O PT pretende, através do resultado das urnas, caso saia vencedor das disputas que travará com o PSDB, neste segundo turno das eleições municipais, redimir-se dos crimes que cometeu. O crime de corrupção, pelo qual foi condenado, dentre outros, o ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, é um fato, entretanto, que não será neutralizado pelo voto. Tal qual Getúlio Vargas voltou à Presidência da República pelos braços do povo, e julgou ter redimido os males da ditadura que empreendeu em nosso país, Dirceu e Lula imaginam que serão alçados a um novo patamar, superior a qualquer veredicto do Supremo Tribunal Federal (STF), pelo voto, através da almejada vitória sobre o PSDB. Ledo engano. Ao pretender buscar a redenção, encontrarão a dura verdade dos fatos: votos não anulam condenações da justiça.

As boas políticas públicas que foram implementadas no governo Lula, já reconhecidas e consagradas, como o Bolsa Família, que promoveu a equalização da renda, a redução da pobreza e o aumento do bem-estar dos brasileiros mais necessitados, não anulam a corrupção que tomou conta do alto escalão daquele governo. Muitos petistas têm utilizado argumentos dessa espécie para defender o PT e acusar o PSDB de “udenista”, em uma referência inadequada e incorreta às tentativas sórdidas dos conservadores da época de ultrapassar os limites institucionais e atingir o poder desviando-se deles, montados na garupa do moralismo. Isso não tem nada a ver com a utilização do mensalão, hoje, pelo PSDB, na campanha eleitoral, a fim de mostrar à sociedade a importância que os mesmos condenados pela corte suprema do país ainda possuem no PT.

José Dirceu fala, de maneira aberta, para quem quiser ouvir, que a preocupação dele, agora, é a derrota do PSDB nas urnas. Aceita a decisão do STF, mas continuará lutando para mostrar que é inocente. Aceita, ma non troppo, compreendem? Aceita, mas toma as rédeas de seu partido e sai em defesa de Fernando Haddad, candidato do PT em São Paulo, atacando José Serra, como se isso lhe fosse render uma indulgência, um perdão, uma anulação de culpa pelo crime que cometeu.

Ora, se o PT quer ser respeitado, novamente, como um partido com candidatos capazes de governar de maneira ética, transparente e livre das práticas de corrupção, tem de fazer mais do que simplesmente manter os condenados na linha de frente. Para fazer com que todos nós possamos crer que estariam dispostos a rever seu passado, repensar seus valores e afastar-se das práticas que os seus mais importantes quadros protagonizaram no governo Lula, os petistas teriam de mudar de rumo. Dar espaço a José Dirceu e aos seus é persistir no erro, é querer passar uma imagem de que quem errou foi a justiça, movida pelas pressões da imprensa e da oposição, das elites que odeiam os pobres etc. Dar voz a esse cidadão, em particular em um momento de eleições, é escolher seguir no mesmo caminho do equívoco, do desrespeito aos petistas e ao partido, isto é, do simples esquecimento de uma história de mais de trinta anos. Lula deveria exercer, agora, o papel de liderança renovadora e transformadora, mas, em lugar disso, veste a fantasia do injustiçado, do operário que chegou lá, mas que, depois de chegar, passou a julgar-se superior.

José Dirceu é sagaz. Responde e orienta que os seus respondam (e aí a ligação entre Haddad e ele se torna evidente), neste momento de campanha eleitoral, com ataques ao PSDB, em especial, ao governo FHC e às mudanças estruturais que promoveu na economia nacional. Mudanças tão importantes, que foram preservadas pelo PT, como as privatizações e as concessões de serviços que podem ser ofertados de maneira mais eficiente e produtiva  pelo setor privado.

No lugar de vir a público e reconhecer seus erros, seu crimes, seus desvios morais e éticos, assumindo novo compromisso com a sociedade, o PT escolhe, portanto, o caminho da busca de uma redenção impossível. Uma redenção que, para Lula e Dirceu, viria pela vitória do PT sobre o PSDB nas urnas. Uma redenção que viria pelas mãos do povo, em contraposição à condenação, pelas mãos do STF, que, para eles, foi tomado pelos tucanos, pela imprensa e por toda sorte de opositores ao chamado lulismo.

Eles não sabem o que fazem… Perdoar-lhes, entretanto, não é possível. Como é que se pode perdoar a quem não pede desculpa pelo malfeito?

Perdendo ou ganhando, a redenção ao PT não virá.

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