Metas de investimento (editorial do Estadão – 02/10/12)

Importante reflexão feita em um dos editoriais do jornal O Estado de S. Paulo, hoje (02/10), a respeito dos reais problemas que seguem travando a agenda do investimento e do crescimento econômico no Brasil.

Mais do que fixar metas, é preciso tomar decisões com foco no investimento: reforma tributária, ajuste fiscal que permita ampliar a poupança doméstica e reduzir por longo período a taxa real de juros, expansão dos investimentos públicos em infraestrutura e redução dos custos de se investir (incluindo os relacionados à pesada burocracia brasileira).

Sem uma agenda que combine planejamento e capacidade de entrega, o governo dará com os burros n’água.

____________________________________________________

Metas de investimento

02 de outubro de 2012

O Estado de S.Paulo

Aumentar o investimento em máquinas, equipamentos, fábricas, infraestrutura e outros ativos essenciais ao crescimento econômico é uma das metas do governo – um objetivo reafirmado em várias ocasiões e agora posto mais uma vez no topo da agenda. A pretensão, segundo se informa em Brasília, é criar condições para o País investir no próximo ano 10% mais do que em 2012. Se der certo, o aumento da capacidade produtiva ainda terá sido medíocre. Mesmo com esse aumento, o governo e o setor privado terão investido, na melhor hipótese, algo próximo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), uma proporção irrisória diante das necessidades do Brasil e do esforço observado em outras economias emergentes, com taxas acima de 25% e em muitos casos superiores a 30%. Embora a presidente Dilma Rousseff e seus ministros se recusem a admiti-lo, o esquema de expansão econômica baseada no consumo está obviamente esgotado. A mudança depende tanto de ações econômicas em vários campos quanto da melhora da administração pública – direta e indireta.

A elevação do investimento pretendida pelo governo é pouco ambiciosa, mas talvez seja realista, diante dos pobres resultados obtidos nos últimos anos. As últimas projeções da área oficial, apresentadas no relatório trimestral de inflação do Banco Central (BC) são pouco animadoras. As novas estimativas indicam para este ano crescimento econômico de apenas 1,6% e investimento 2,2% menor que o de 2011. Até o meio do próximo ano, o PIB terá crescido 3,3% em quatro trimestres e o valor investido terá aumentado só 1,4%.

Até agora, as contas nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) cobrem até o fim do primeiro semestre. Entre abril e junho, o investimento em bens de produção, infraestrutura e outras construções equivaleu a 17,9% do PIB. No segundo trimestre do 2012 a relação havia sido de 18,8%. Pode ter ocorrido nova redução no terceiro trimestre, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

Nos últimos dez anos, as taxas mais altas ficaram em torno de 19% do PIB, mas o resultado deste ano poderá ser mais modesto. Se o PIB crescer 4% em 2013 e o investimento for 10% maior que o deste ano, a proporção ainda ficará próxima – e talvez abaixo – de 20%. O governo anunciou há algum tempo a intenção de alcançar 24% até 2014, mas só com muito otimismo se pode, atualmente, apostar nesse resultado.

O menos importante, nesta altura, é fixar metas. Todos estão de acordo quanto à necessidade de se investir pelo menos 24% ou 25% do PIB para sustentar, a longo prazo, um crescimento econômico igual ou pouco superior a 5% ao ano. É um erro fixar um objetivo de expansão econômica para um ou dois anos, mas essa foi a política dominante na maior parte da última década.

Em vez de continuar simplesmente inventando metas e definindo políticas de curto alcance, o governo deveria estudar seriamente a situação para chegar a uma política para tentar remover os obstáculos. A baixa qualidade do planejamento e da execução de projetos da administração federal é um dos entraves mais evidentes. Neste ano, até agosto, as estatais controladas pela União investiram 53,3% do previsto para 2012, mas só uma empresa, a Petrobrás, foi responsável por 89,7% do total aplicado no período.

No Sudoeste da Bahia, 185 aerogeradores – cataventos gigantes – estão prontos para produzir energia elétrica, mas continuam parados por falta de linhas de transmissão. Este é apenas um dos muitos e espantosos exemplos de incompetência gerencial de um setor público loteado, aparelhado e preparado muito mais para acomodar companheiros e aliados do que para operar e apoiar o desenvolvimento.

Há outros bem conhecidos. Dois dos mais importantes são a tributação excessiva e mal distribuída e as discutíveis prioridades do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), muito mais empenhado em apoiar grandes grupos eleitos como vencedores do que em multiplicar as oportunidades de crescimento e de modernização de milhares de outras empresas promissoras. Sem o ataque a esses problemas, a fixação de metas de investimento será uma perda de tempo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s