Movimentos de mercado e o novo governo – Jornal da Record (27/10/2014)

Assista à entrevista que concedi ao Jornal da Record, no último dia 27, onde discuti os efeitos da eleição sobre os movimentos de mercado. A incerteza e o risco a ela associado têm produzido uma queda de 2 dígitos nas ações da Petrobras e uma alta do dólar (nos momentos de pico) para algo como R$ 2,56/US$.

Enquanto a presidente Dilma não anunciar os novos nomes de sua equipe e não der sinais claros na direção da retomada da responsabilidade fiscal e da composição de uma estratégia de política econômica que permita aumentar as taxas de crescimento e controlar a inflação, essa instabilidade persistirá.

O quadro econômico e político, hoje, é muito mais incerto do que em 2011. Dilma enfrentará um Congresso e uma Sociedade divididos e, do lado de fora, os efeitos das mudanças na política monetária dos EUA. Internamente, portanto, o mínimo do mínimo precisará ser feito para que se evite o mal maior (inflação ainda mais elevada e crescimento baixo por mais tempo).

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Entrevista a Fábio Alves, do Estadão (27/10/2014)

Por que o mercado azedou com o discurso de vitória de Dilma

Fábio Alves

27 outubro 2014

Dilma não disse nada do que o mercado queria ouvir (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Para o mercado financeiro, o segundo mandato de Dilma Rousseff começou no domingo, 26, logo no seu primeiro pronunciamento como presidente reeleita.

E à Dilma, pelo comportamento dos preços dos ativos na abertura, não foi dado um período de lua de mel, como acontece com os presidentes eleitos, ela inclusive em 2011. O dólar disparava para ao redor de R$ 2,55 por volta das 10 horas da manhã desta segunda-feira.

A Bovespa chegou a cair 6,20% na mínima de hoje até as 11h00, em 48.722,29 pontos, e há pouco a perda era de 4,8%.

E por que tanto mau humor?

Com a palavra um renomado executivo financeiro: “Três elementos são importantes agora na área econômica: nomes, programa e cronograma”. Ele acrescenta: “O discurso de ontem não contempla nenhum deles e a Presidente reeleita não parece demonstrar urgência com o assunto.”

De fato, no seu discurso de domingo à noite, Dilma disse apenas que promoverá “ações localizadas” na economia, “para retomarmos nosso ritmo de crescimento, continuarmos os níveis altos de emprego e assegurando, também, a valorização dos salários”. Em nada as palavras da presidente reeleita parecem indicar um ajuste macroeconômico nem mudança no que o mercado batizou de “nova matriz econômica”. Afinal, ela falou apenas em “ações localizadas”.

Sim, ela falou que “seguirei combatendo com rigor a inflação e avançando no terreno da responsabilidade fiscal”, mas isso Dilma vem repetindo desde 2011.

A presidente não terá alívio do mercado financeiro nesta semana, quando dois eventos poderão azedar mais ainda a sua relação com investidores e analistas.

Na quarta-feira, dia 29, o Copom divulgará sua decisão sobre a taxa Selic. É consenso entre analistas que o Banco Central manterá a taxa básica de juros inalterada em 11% ao ano, mas há uma parcela crescente do mercado que espera uma sinalização de aperto monetário adicional do BC no comunicado que acompanha a decisão.

Para essa corrente do mercado, a rápida desvalorização do real nos últimos dois meses requer uma ação do BC, uma vez que se espera algum repasse dessas perdas cambiais aos preços de bens e serviços. Em 2014, o dólar acumula ganho de quase 8% em relação ao real. E uma sinalização do BC é importante para controlar as expectativas inflacionárias, algo considerado como batalha perdida desde 2011, quando Dilma assumiu o comando do País.

Na pesquisa semanal Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo BC, os analistas esperam uma inflação de 6,45% para 2014 e de 6,3% para 2015.

E nesta sexta-feira sairá o resultado primário consolidado das contas do setor público para o mês de setembro.

É bom lembrar que em agosto o Governo Central, Estados, municípios e estatais, com exceção da Petrobras e Eletrobras, apresentaram déficit primário de R$ 14,460 bilhões em agosto, o pior resultado desde dezembro de 2008. Foi a primeira vez que o BC registrou déficit no resultado do setor público por quatro meses consecutivos.

E para setembro, a expectativa de analistas é para um número ruim. Os economistas da Rosenberg Associados, por exemplo, esperam um déficit R$ 7 bilhões em setembro apenas para o resultado primário do Governo Central, e essa estimativa já inclui a receita extraordinária do Refis. Para o setor público consolidado, a consultoria prevê um déficit de R$ 5 bilhões.

Ninguém espera que o governo cumpra a meta consolidada de superávit primário de 1,9% do PIB em 2014.

O economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, prevê um superávit primário de 1,5% do PIB neste ano, mas esta projeção tem um viés de baixa. Para o resultado recorrente, isto é, sem receitas extraordinárias, o número deverá ser de apenas 0,5% do PIB, “no máximo”, diz ele.

Ou seja, para o azedume de investidores e analistas, o discurso da presidente ficou aquém do esperado e muito mais do mesmo do que Dilma vinha falando durante a campanha eleitoral. Chegou-se a duvidar que suas palavras durante a corrida presidencial eram apenas para satisfazer o seu eleitorado e que, na hora necessária, ela poderia anunciar alguma mudança de rumos.

O seu discurso ontem não foi nesta direção.

Ela disse que sua prioridade está na reforma política, algo que não depende unicamente dela. O que depende apenas da vontade da presidente seria uma mudança de postura na sua política fiscal e parafiscal, em especial o uso dos bancos públicos, particularmente o BNDES, para promover empresas e setores específicos e também estimular o crescimento via consumo.

“Nas nossas contas, o BNDES já está custando quase R$ 30 bilhões ao ano e o banco já recebeu R$ 410,8 bilhões em empréstimos desde 2008″, diz Salto.

Sem falar no estrago à credibilidade do governo Dilma causada pela estratégia da chamada “contabilidade criativa” para turvar a noção do verdadeiro esforço fiscal brasileiro.

“A presidente Dilma manteve a contabilidade criativa como cerne de sua política fiscal, sob a liderança do secretário do Tesouro, Arno Augustin”, argumenta Salto. “A estratégia nos trouxe a um patamar de endividamento bruto da ordem de 60,1% do PIB, ante 53,4% do PIB em dezembro de 2010, já que ocultou a expansão e motivou o gasto e a renúncia tributária para além das possibilidades dadas pelo orçamento.”

Aliás, de nada adiantará a presidente nomear um nome forte para o Ministério da Fazenda se ela mantiver no cargo Arno Augustin, na visão de interlocutores desta coluna. Essa (a manutenção de Augustin no cargo) seria mais uma sinalização de que Dilma continuará sendo a mesma do primeiro mandato ao menos na economia.

Diante do mau humor do mercado, não há tempo para Dilma tergiversar: um sinal é preciso ser enviado imediatamente. A começar pelo novo ministro da Fazenda.

Fábio Alves é jornalista do Broadcast

Não vamos nos dispersar

Sou PSDB desde que me conheço por gente. Na cidade onde fui criado, Laranjal Paulista, os tucanos sempre foram muito fortes: Mário Covas é lembrado, por lá, até hoje, com carinho e admiração. Era um tempo em que o PSDB ia ao encontro das pessoas.

Serra, Covas, Montoro, Fernando Henrique, Ruth Cardoso são nomes que se confundem com o pensamento social-democrata. Jamais deveríamos nos voltar a um pensamento conservador e descolado da realidade social.

O PSDB é um partido que deu contribuições efetivas para que os avanços econômicos passassem a ser compartilhados por todos. Seguiu, sem bem comunicar, a diretriz da igualdade de oportunidades.

Fez isso combatendo a hiperinflação e criando as bases dos programas de transferência de renda com condicionalidades. Fez isso ao universalizar o acesso à educação básica, ao criar o Programa Saúde da Família (PSF), ao elevar o salário mínimo em 40%, ao reformar a previdência para torná-la sustentável, ao criar o programa dos medicamentos genéricos, com José Serra, para citar exemplos concretos.

Acho que temos de ser tolerantes em relação ao resultado das eleições no último domingo (26 de outubro). Esta é a prioridade zero para quem votou no PSDB e quer lutar por uma alternativa ao PT. Eleição é assim mesmo: ganhar e perder faz parte do jogo democrático, como disse Aécio Neves. Não é porque perdemos que vamos sair pedindo (feito a Rainha de Copas) que “se cortem as cabeças!”

Achar que o Bolsa Família equivale à compra de votos é um grande erro, um tremendo absurdo, que tem de ser refutado pelo PSDB. Não se deve aceitar no partido quem pense dessa forma, na minha opinião. Do mesmo modo, refutar a legitimidade do pleito é um caminho perigoso a ser evitado por uma oposição responsável.

O Bolsa Família é um sucesso decorrente de outro sucesso – o Bolsa Escola, criado no governo FHC. A agenda da erradicação da pobreza iniciada pelo ex-presidente e por Dona Ruth tem de estar no coração dos verdadeiros tucanos.

Alimentar o ódio e culpar este ou aquele grupo pela derrota eleitoral é um tiro no pé. Eu arrisco dizer que perdemos a eleição por conta desse tipo de discurso e de atitude (não por parte do candidato, mas por parte de uma parcela importante de seus eleitores).

O saudoso governador Mário Covas dizia: o povo sempre acerta nas suas decisões, mas nem sempre os políticos conseguem transmitir sua mensagem da melhor forma para os eleitores.

Este é o erro do PSDB. Péssima comunicação, distanciamento das bases, falta de um discurso social coeso e uníssono. Melhoramos muito, é verdade, o que se revela na força crescente obtida nas urnas desde 2002. Desta vez, “batemos na trave”.

Temos de ter um discurso mais social e menos economicista, mais próximo do “pulsar das ruas”, como diria o governador André Franco Montoro.

Vejo as coisas assim e acho que a oposição nunca esteve mais forte do que hoje.

“Não vamos nos dispersar!” – Tancredo Neves.

É hora de mudar!

Mailson da Nóbrega e Felipe Salto

Foram muitas as mentiras contadas pelo PT nesta campanha. Quanto mais mentiras, no entanto, eles contavam, mais verdades eram mostradas sobre eles. Uma das maiores inverdades foi a afirmação de que o presidente Fernando Henrique Cardoso teia quebrado o país.

Do Plano Real, em 1994, ainda no governo do presidente Itamar Franco, aos anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, que se encerraram em 2002, o Brasil passou por importante reestruturação na ordem econômica. É incorreta, pois, a afirmação da candidata do PT, Dilma Rousseff, de que o país teria “quebrado três vezes no governo tucano”.

Em verdade, o país tornou-se, com a modernização promovida na economia e no Estado, uma nação pronta para crescer ainda mais e para distribuir renda com maior vigor. O controle da inflação melhorou a vida de milhões de brasileiros e, a partir de então, o crescimento tornou-se um processo mais democrático e não mais concentrador de riqueza.

Em 1995, o país conseguiu voltar ao mercado internacional de capitais e retomou as emissões de bônus negociáveis – um fato histórico. Este é um sinal de credibilidade, já que nenhum país consegue financiar sua dívida se não demonstrar capacidade de pagamento. É como alguém que vai ao banco e submete-se à análise de crédito. Se não possuir renda suficiente para pagar as parcelas e os juros, o banco dificilmente lhe concederá o empréstimo solicitado.

Os fluxos de bons investimentos estrangeiros passaram a fazer parte da nossa realidade apenas no governo FHC. Os investimentos estrangeiros diretos, isto é, dólares que chegam ao país com o objetivo de financiar a produção, passaram de US$ 2,1 bilhões, em 1994, para US$ 32,8 bilhões, em 2000, encerrando 2002 a US$ 16,6 bilhões – patamar equivalente a quase 8 vezes ao de 8 anos atrás.

No âmbito da política monetária, adotou-se um regime de controle da inflação baseado em metas anuais, a partir de 1999, com a garantia da autonomia operacional ao Banco Central, para que se pudessem cumprir plenamente os objetivos fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Nas finanças públicas, o governo aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal (lei complementar nº 101/2000), que tornou o setor público mais transparente e eficaz (ainda há muito por fazer nesse sentido).

Em 1993, um ano antes do Real, a inflação encerrou o exercício a 2.477,1%, reduzindo-se a 916,4% (1994) e a 22,4% (1995), já no término do primeiro ano de governo do presidente FHC. Evidentemente, o Plano Real “matou o dragão”. As medidas acima mencionadas, que foram tomadas ao longo do governo tucano, foram complementos essenciais à manutenção dessa conquista.

A dívida externa bruta do setor público reduziu sua participação na dívida total, denotando grande esforço do governo diante do quadro adverso. Em 1994, a dívida pública representava 73,0% da dívida externa bruta total e, em 2002, estava em 59,4% da dívida total. Não há indício, portanto, de insolvência externa, no período, isto é, de incapacidade de financiamento das necessidades do país perante o resto do mundo. Ao contrário, houve uma forte capacidade de reação às diversas crises que se instalaram no quadro internacional.

Ganhamos credibilidade junto aos investidores internacionais e pudemos crescer, pelo canal externo, no período 1995 a 2003, a uma média muito similar à dos países latino-americanos (ao contrário do que ocorre hoje, quando os países irmãos crescem 3 vezes mais do que nós). Não fossem as crises que acometeram o Brasil e o mundo, teríamos nos saído ainda melhor, no período tucano, e, com um detalhe, sem descuidar da inflação (o que não acontece no governo da presidente Dilma).

Havia fluxo suficiente de recursos de boa qualidade para fazer frente ao avanço do déficit em transações correntes, isto é, ao financiamento das transações dos residentes no país com o resto do mundo. Nos momentos de escassez, os empréstimos e financiamentos foram úteis para “azeitar” a economia brasileira.

Os oito anos da era FHC foram recortados por crises internacionais (México, Argentina e Rússia, sem mencionar a crise cambial e a crise gerada pela eleição de Lula). Ainda assim, a economia cresceu a taxas muito próximas às dos países comparáveis e sustentou uma inflação cadente.

A candidata Dilma resolveu fantasiar sobre o quadro econômico do governo FHC. Insiste em repetir que o PSDB teria “quebrado o país em três ocasiões”, quando os dados são muito claros em comprovar exatamente o oposto.

Até as pedras sabem que o país só pôde crescer mais de 4%, no governo Lula, porque o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou uma herança bendita: a consolidação da estabilização monetária; a abertura da economia; o ajuste das contas públicas; as privatizações; a atração de investimentos externos para fins produtivos; a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal; o saneamento do sistema financeiro (com o Proer); a renegociação da dívida dos estados; a liquidação dos bancos estaduais; a criação do Bolsa Escola, que já atendia a 22 milhões de pessoas; a instituição do regime de metas para a inflação e tantos avanços na área econômica e na área social que poderíamos continuar a listar.

Uma árvore foi plantada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo PSDB. Era frondosa e dava muitos frutos. O presidente Lula soube colhê-los, rapidamente, mas a presidente Dilma preferiu não mais cultivá-la e, pior, nada plantou em seu lugar.

Agora, às vésperas das eleições, o PT quer convencer os brasileiros de que a tomada de empréstimos, no governo FHC, junto ao FMI, seria a evidência definitiva de que o país teria quebrado naquele período.

A verdade que qualquer economista que se preze conhece é uma só: nenhum país consegue, por três vezes (1999 – crise cambial; 2001 – crise argentina e 2002 – risco-país explodindo em razão da iminência da eleição de Lula), acesso a empréstimos em condições tão boas, como o governo FHC conseguiu, se não for uma economia sólida, com condições de pagar o financiamento e fundamentos macroeconômicos de boa qualidade.

Chegou a hora de retomarmos um programa econômico com justiça social e legarmos ao país um novo momento de dinamismo e progresso, redução das desigualdades sociais e melhoria dos serviços públicos.

Por tudo isso, votamos em Aécio Neves nestas eleições!

Os dados de emprego divulgados hoje não foram positivos

Para entender o que vem realmente acontecendo com o trabalho no Brasil, é preciso olhar duas informações: geração de empregos e número de pessoas que estão dispostas a trabalhar. Vejam esta simples tabela: a ocupação está se reduzindo, mas a PEA (gente procurando emprego) continua caindo mais fortemente.

O que é curioso é o dado desta pesquisa – a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) – estar tão descasado do que vem mostrando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), onde a PEA já não tem mais essa trajetória “benigna” a ponto de evitar uma alta da taxa de desemprego (número de desempregados dividido pela PEA).

Dada essa evolução negativa da geração de empregos e considerando-se o cenário de inflação elevada e de desaceleração da renda, a massa salarial (que compõe emprego e renda em uma só variável, por isso chama-se “massa”) está crescendo abaixo de 1%! Algo muito inferior ao que se observava há um atrás (vejam a tabela e os destaques em amarelo).

Em resumo: há, a cada mês, um número maior de desempregados e, para os que estão empregados, a renda já não cresce mais com o mesmo vigor. Este é o dado mais relevante diante de um comportamento tão “estranho” observado na PEA, que distorce o número amplamente divulgado pela imprensa e pelo governo, a taxa de 4,9% que estampou as manchetes de todos os portais nesta tarde.

Tabela

Entrevista sobre a atuação do Banco Central e sua relação com a política fiscal (17 de outubro de 2014)

Leia a seguir a entrevista que concedi à jornalista Angela Bittencourt, da Casa das Caldeiras – Valor Econômico.

Moeda no curto prazo revela péssima qualidade da política fiscal

O crescimento acelerado das operações compromissadas do Banco Central com o mercado – ou a venda temporária de títulos do Tesouro que estão na carteira do BC com data determinada para recompra – não chega a ser um problema em si. Essas operações são parte de um processo de desmonte da política fiscal brasileira, vigente entre 1999 e 2007, que assumiu um viés francamente expansionista nos últimos anos. Esta é a opinião do economista da Tendências Consultoria Integrada, Felipe Salto, especialista em Finanças Públicas. Em entrevista ao Casa das Caldeiras, Salto reconheceu a possibilidade de o Banco Central praticar uma taxa básica menor, não fosse o setor público tão expansionista em termos fiscais. “Em verdade, a expansão observada no BC é reflexo, a meu ver, de um problema que se origina no Tesouro. A estratégia de colocação de títulos prefixados a um custo baixo, pelo governo, não tem surtido o resultado esperado, não tem encontrado demanda suficientemente elevada e, assim, o mercado acaba se dirigindo ao ‘guichê’ do BC. A autoridade monetária cumpre o papel de evitar o excesso de moeda e, portanto, o distanciamento da taxa do mercado aberto em relação à meta Selic.”

Leia abaixo trechos da entrevista:

Casa das Caldeiras: Esta concentração de moeda no curto prazo manda alguma mensagem e para quem?

Felipe Salto: Esse movimento é simbólico. Revela a péssima qualidade da política fiscal. O mercado está confiando cada vez menos na estratégia de política econômica adotada pelo atual governo. Precifica, portanto, juros elevados para o futuro e, com isso, acaba demandando remuneração excessivamente elevada para financiar as ações do setor público. É por esse motivo que voltamos a sustentar uma despesa com juros novamente na casa de 5% do PIB e um déficit nominal da ordem de 4% do PIB.

Caldeiras:  Há uma razão particular para o forte aumento das operações compromissadas do Banco Central com o mercado?

Salto: Os títulos que estão vencendo, no âmbito da Dívida Pública Federal, a DPF, levam a que o Banco Central tenha de suprir a necessidade de financiamento do setor público não coberta pela ausência de demanda do mercado pelos papéis que o Tesouro tenta empurrar nos leilões (títulos mais longos). Um segundo fator a explicar o aumento das compromissadas é o custo das operações de swap cambial, que gera efeito fiscal expansionista e, portanto, exige contrapartida do Banco Central [esterilizando moeda/retirando moeda de circulação]. Além disso, variações nos depósitos compulsórios e na própria Conta Única do Tesouro podem explicar os movimentos mais recentes.

Caldeiras: Os aportes de recursos feitos pelo Tesouro Nacional aos bancos públicos (com emissão de títulos) contribuiram, nos últimos anos, para a expansão dessas operações?

Salto: Quando o governo emite os papéis para o BNDES, ele os coloca nas mãos do banco, que os monetiza ao longo do tempo. A rigor isso não teria efeito sobre a liquidez (retira-se moeda num primeiro momento e coloca-se em um segundo). No entanto, a atuação excessivamente expansionista dos bancos [públicos], com assunção de subsídios elevados, pelo Tesouro, pressiona as necessidades de financiamento do governo federal e também gera efeitos expansionistas, o que tem explicado, a meu ver, uma parte da evolução das operações compromissadas. No entanto, até abril de 2012, a maior fonte de aumento das compromissadas era a formação de reservas – a compra de dólares pelo Banco Central em mercado para uma expansão acelerada e desmedida da conta de reservas internacionais.

Caldeiras: Se a política fiscal brasileira não tivesse um caráter tão expansionista nos últimos anos, o efeito monetário das operações do governo seria outro? O país poderia estar praticando uma taxa básica menor?

Salto: Sim, pois a política monetária teria sua potência aumentada. O crédito direcionado reduz o percentual de dinheiro sujeito às variações da taxa básica. O excesso de atuação do setor público eleva os juros básicos para além do razoável e expulsa o investimento.

Caldeiras: Para a gestão presidencial que tem início em janeiro as ‘operações compromissadas’ impõem alguma dificuldade? Essas operações somadas à dívida mobiliária, elevando a dívida bruta a R$ 3 trilhões deveriam impor cautela ao governo?

Salto: As operações compromissadas são parte de todo o processo. Em verdade, são mais o reflexo de um problema maior (desmonte da política fiscal praticada pelo governo entre 1999 e 2007) do que uma questão em si. O Banco Central melhoraria a gestão das compromissadas e reduziria a sua exposição se convivesse com um setor público menos expansionista em operação na economia real.

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A história de êxito que Dilma quer destruir

O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso – ao contrário do que prega a candidata do PT – modernizou o país e criou as bases da estabilização e da inserção do Brasil na economia mundial

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Do Plano Real, em 1994, ainda no governo do presidente Itamar Franco, aos anos do presidente Fernando Henrique Cardoso, que se encerraram em 2002, o Brasil passou por importante reestruturação na ordem econômica. Trata-se de mentira deslavada, pois, a afirmação da candidata do PT, Dilma Rousseff, de que o país teria “quebrado três vezes no governo tucano”.

Em verdade, o país tornou-se, com a modernização promovida na economia e no Estado, uma nação pronta para crescer ainda mais e para distribuir renda e riqueza com maior vigor.

Este é o problema dos petistas: só enxergam verdade e êxito onde está pregada a estrela de seu partido. Quanto ao resto, execram, repudiam, difamam, mesmo sabendo que os 12 anos de governos petistas foram beneficiados pelas reformas realizadas sob a liderança do PSDB.

Em 1995, o país conseguiu voltar ao mercado internacional de capitais e retomou as emissões de bônus negociáveis – um fato histórico.

A conquista da estabilidade, ainda no governo anterior, mas já pelas mãos de FHC, no Ministério da Fazenda, abriu espaço para que o país iniciasse a reconstrução da credibilidade perdida nas décadas anteriores, após longos anos marcados pelo fantasma da inflação.

Os fluxos de bons investimentos estrangeiros passaram a fazer parte da nossa realidade, algo inédito para o Brasil. Os investimentos estrangeiros diretos, conforme dados do Banco Central, passaram de US$ 2,1 bilhões, em 1994, para US$ 32,8 bilhões, em 2000, encerrando 2002 a US$ 16,6 bilhões – patamar equivalente a quase 8 vezes ao de 8 anos atrás.

É um feito impressionante, já que, mesmo diante da crise argentina (2001) e da apreensão do mercado quanto à eleição do presidente Lula (2002), os fluxos de dólares com a finalidade de investir em empreendimentos produtivos se mantiveram firmes na direção do nosso país.

IED

No âmbito da política monetária, adotou-se um regime de controle da inflação baseado em metas anuais, a partir de 1999, com a garantia da autonomia operacional ao Banco Central, para que se pudessem cumprir plenamente os objetivos fixados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Nas finanças públicas, o governo aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal (lei complementar nº 101/2000), que permitiu ao país avançar ainda mais nos anos seguintes.

A inflação média anual, no governo do PSDB, foi de 9,1%, quando calculada pelo IPCA. Nos oito anos imediatamente anteriores, a inflação média anual havia ficado em 1.059,4%.

Em 1993, um ano antes do Real, a inflação encerrou o exercício a 2.477,1%, reduzindo-se a 916,4% (1994) e a 22,4% (1995), já no término do primeiro ano de governo do presidente FHC. Evidentemente, o Plano Real matou o dragão. As medidas tomadas ao longo do governo do PSDB, contudo, foram complementos essenciais à manutenção dessa conquista.

Por exemplo, sem a adoção do regime de metas para a inflação – hoje tão desrespeitado, na presença de um governo que privilegia o experimentalismo e dá as costas às conquistas do passado – teria sido impossível manter uma inflação baixa por tanto tempo.

O desafio maior, agora, é reduzir a inflação ainda mais, o que só poderá acontecer quando o país voltar a primar pela responsabilidade nas contas públicas e pelo manejo coerente e técnico da política monetária.

IPCAIPCA

Quanto à solvência externa, o Brasil tinha uma dívida bruta, ao final de 1994, da ordem de 27,3% do PIB, reduzida a 20,7% do PIB já em 1995.

A crise da Ásia e a crise da Rússia, no entanto, promoveram mudanças importantes neste quadro. O indicador foi a 28,6% do PIB, em 1998, e a 41,2% em 1999, ano em que foi abandonada a chamada âncora cambial, para que se compusesse o sofisticado modelo de gestão da política econômica pautado na flutuação cambial com independência da política monetária e maior responsabilidade fiscal.

A dívida externa bruta do setor público, contudo, reduziu sua participação na dívida total, denotando grande esforço do governo diante do quadro adverso. Em 1994, a dívida pública representava 73,0% da dívida externa bruta total e, em 2002, estava em 59,4% da dívida total.

DÌVIDA

Não há indício, portanto, de insolvência externa, no período, isto é, de incapacidade de financiamento das necessidades do país perante o resto do mundo. Ao contrário, houve uma forte capacidade de reação às diversas crises que se instalaram no quadro internacional.

O país conseguiu manter um bom ritmo de crescimento do investimento estrangeiro direto, reduzir o endividamento bruto como proporção da dívida total e ainda garantir uma evolução controlada dos resultados dos fluxos de entrada e saída de dólar para o país, como mostraremos, lançando mão do bom uso das reservas em situações críticas.

O saldo em conta corrente e os fluxos de capitais são os dois componentes do chamado balanço de pagamentos. Já mostramos que os investimentos externos cresceram, no período, contrariando a visão negativa que a presidente Dilma insiste em repetir para qualificar, de maneira desonesta, o período que o PSDB governou o país.

Agora, apresentaremos a evolução do saldo em transações correntes (exportações de bens e serviços menos importações de bens serviços somada ao saldo das entradas e saídas das rendas recebidas e envidas ao/do exterior).

Esse é o indicador relevante para identificar se o país está crescendo com recursos advindos de outras nações, isto é, com renda poupada por outros países (caso em que há déficit em conta corrente, podendo haver o financiamento necessário ou não) ou se nós é que estamos financiando parte das necessidades de consumo e investimento do resto do mundo (superávit).

Ganhamos credibilidade junto aos investidores internacionais e pudemos crescer, pelo canal externo, no período 1995 a 2003, a uma média muito similar à dos países latino-americanos (ao contrário do que ocorre hoje, quando os países irmãos crescem 3 vezes mais do que nós). Não fossem as crises que acometeram o Brasil e o mundo, teríamos nos saído ainda melhor, no período tucano, e, com um detalhe, sem descuidar da inflação (o que não acontece no governo da presidente Dilma).

O déficit em conta corrente, em 1994, figurava na casa de US$ 1,8 bilhão e passou a um saldo da ordem de US$ 33,4 bilhões, em 1998, reduzindo-se a US$ 7,6 bilhões no último ano do governo. No período, os investimentos estrangeiros diretos, como discutimos anteriormente, evoluíram fortemente, financiando boa parte destes resultados.

Em 1994, esses investimentos produtivos totalizaram US$ 2,1 bilhões, passando a US$ 28,9 bilhões, em 1998, e a US$ 32,8 bilhões em 2000, repito. Mesmo ao final do governo, quando o risco-país havia crescido fortemente em razão da apreensão dos mercados derivada da probabilidade crescente de eleição do PT, os investimentos ainda totalizaram US$ 16,6 bilhões (2002).

Havia, portanto, fluxo suficiente de recursos de boa qualidade para fazer frente ao avanço do déficit em transações correntes, isto é, ao financiamento das transações dos residentes no país com os não residentes, incluindo o saldo da balança comercial, como definimos acima. Neste ponto, é preciso lembrar que o governo FHC tomou medidas importantes em prol da abertura comercial, isto é, da inserção da economia brasileira no mundo (direção que, hoje, o governo Dilma refuta, afundando o país no protecionismo custoso e ineficiente).

Isso explica os resultados deficitários não financiados, integralmente, por investimentos estrangeiros diretos, em um primeiro momento (ver gráfico a seguir, que apresenta a soma destes fluxos ao resultado das transações correntes), mas que, paulatinamente, passaram a convergir para números menos negativos até atingirem o campo positivo em 1999.

Outros fluxos, como empréstimos e financiamentos, capitais de curto prazo e mesmo as reservas foram úteis para “azeitar” essa dinâmica enquanto consolidávamos a economia brasileira em um novo patamar, preparando-a para crescer com mais força no futuro próximo.

IED2

A respeito das reservas (outro importante indicador para avaliar a solvência externa), consideraremos sua relação com a dívida externa bruta total. O que se evidencia, logo ao início do governo FHC, é uma trajetória de alta importante protagonizada por este indicador (reservas/dívida), que saltou de 26,2% (1994) para 33,4% (1996), reduzindo-se fortemente em seguida, no entanto.

Isso se explica pelas crises que levaram a saídas de investimentos de curto prazo do país, ainda que os investimentos diretos tivessem preservado sua trajetória crescente. O fato é que a escassez relativa de recursos levou à redução das reservas para fazer frente aos efeitos das crises já mencionadas (Ásia, em 1997, e Rússia em 1998) e também para ajustar a economia ao novo regime de câmbio flutuante (1999).

Após atingir o piso de 14% (2000), a relação reservas/dívida voltou a crescer e atingiu 18% ao final do governo FHC.

Os oito anos da era FHC foram marcados por 4 crises internacionais. Ainda assim, a economia cresceu a taxas muito próximas dos países comparáveis e sustentou uma inflação cadente, que apenas voltou a ficar pressionada na iminência da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

A candidata Dilma resolveu fantasiar sobre o quadro econômico do governo FHC. Insiste em repetir que o PSDB teria “quebrado o país em três ocasiões”, quando os dados são muito claros. Até as pedras sabem, presidente Dilma, que o país só pôde crescer mais de 4%, no governo Lula, porque FHC deixou uma herança bendita:

- a consolidação da estabilização monetária;

- a abertura da economia;

- o ajuste das contas públicas;

- as privatizações;

- a atração de investimentos externos para fins produtivos;

- a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal;

- o saneamento do sistema financeiro (com o Proer);

- a renegociação da dívida dos estados;

- a liquidação dos bancos estaduais;

- a criação do Bolsa Escola, que já atendia a 22 milhões de pessoas;

- a instituição do regime de metas para a inflação e tantos avanços na área econômica e da área social que poderíamos continuar a listar.

Uma árvore foi plantada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo PSDB. Era frondosa e dava muitos frutos. O presidente Lula soube colhê-los, rapidamente, mas a presidente Dilma preferiu não mais cultivá-la e, pior, nada plantou em seu lugar.

Agora, às vésperas das eleições, quer convencer os brasileiros de que a tomada de empréstimos, no governo FHC, junto ao FMI, seria a evidência definitiva de que o país teria quebrado naquele período. A verdade que qualquer economista que se preze conhece (Dilma, infelizmente, mostra que não honra o seu diploma de economista) é uma  só: nenhum país consegue, por três vezes (1999 – crise cambial; 2001 – crise argentina e 2002 – risco-país explodindo em razão da iminência da eleição de Lula), acesso a empréstimos em condições tão boas, como o governo FHC conseguiu, se não for uma economia sólida, com condições de pagar o financiamento e fundamentos macroeconômicos de boa qualidade.

Desfeita a mentira, é preciso olhar para frente.

O Brasil pode voltar à rota do crescimento e da expansão da igualdade de oportunidades, sim, mas, para isso, terá de promover a mudança que só pode erigir do voto popular, que só pode encontrar lugar na esteira de um uníssono “não” ao grupo que, há 12 anos, agarrou-se ao poder e abandonou seus antigos ideais.

Chegou a hora de mudar!

Armínio Fraga no Valor desta quinta-feira (9/10/14)

Salários devem crescer com a economia, diz Armínio

Por Claudia Safatle e Alex Ribeiro | De Brasília

 Leo Pinheiro/Valor - 16/9/2014
Arminio: “Estava fazendo falta aparecer gente para debater. Acho saudável. Espero que seja um debate de alto nível e que respeite os fatos e os contextos”

Chamado ao debate pela presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, o ex-presidente do Banco Central, Arminio Fraga, escolhido para ser o ministro da Fazenda de um eventual governo Aécio Neves, afirma que tal como proposto pela campanha do PT, tal comparação é “rasteira” e uma tentativa de “fugir do debate”.

O cerne da questão é recuperar a capacidade do país de crescer. “Para os salários continuarem a crescer, para os programas sociais continuarem a crescer, é preciso que a economia cresça”. Para ele, apesar de todos os progressos o Brasil continua a ser um país “tremendamente desigual”.

Em entrevista ao Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, ele propõe um “novo regime” de política econômica que vai além do retorno ao tripé representado pela meta de inflação, superávits primários das contas públicas e taxa de câmbio flutuante. O modelo se traduz em três eixos: o reequilíbrio macroeconômico, o aumento dos investimentos e o crescimento da produtividade.

De início será preciso dar maior transparência à contabilidade fiscal. Isso vai exigir a inclusão, no Orçamento da União, de todos os subsídios concedidos pelo atual governo às empresas nos empréstimos dos bancos públicos federais.

“Não sou radicalmente contra as políticas de subsídios, mas sou a favor de critérios bem definidos de concessão e avaliação de custos e benefícios para que tenham ganhos sociais e não privados”, disse.

O segundo é aumentar os investimentos dos atuais 16,5% do PIB para 24% do PIB. O reforço da política macroeconômica ajudaria a queda dos juros e tiraria a pressão sobre a taxa de câmbio. Seria preciso, também, ter estabilidade nas regras do jogo e mobilização de capitais privados para alavancar a infraestrutura.

Para aumentar a produtividade da economia, a terceira vertente é desmontar, gradualmente, a chamada “nova matriz econômica” do governo Dilma, sustentada por subsídios, desonerações de impostos e proteção à concorrência externa.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: O programa do PSDB propõe a volta do tripé macroeconômico levado a sério ou se trata de um novo regime?

Arminio Fraga: Considerando o que está acontecendo hoje, é as duas coisas. É a volta do tripé com o reforço da transparência. Hoje isso virou um aspecto importante, porque o governo está levando a criatividade a um extremo que começa a ser altamente relevante, não só por uma questão de princípio, mas pelo tamanho. Temos o tema da dívida líquida versus bruta e o início da discussão sobre a trajetória de crescimento do gasto público.

Valor: O governo destacou o ministro Aloizio Mercadante, que se licenciou da Casa Civil, para cuidar do debate econômico da campanha. O que o senhor acha disso?

Arminio: Para mim, tanto faz. Estava fazendo falta aparecer gente para debater. Acho saudável. Espero que seja um debate de alto nível e que respeite os fatos e os contextos.

Valor: A presidente disse que o momento é de fazer comparações do governo dela com o de FHC, há doze anos. Citou a inflação de 12,5% em 2002, quando da sua gestão no BC. É uma boa comparação?

Arminio: A comparação deve ser feita dentro do contexto do que cada governo encontrou e o que deixou. Não é mais do que obrigação de um governo deixar as coisas melhores do que encontrou. Eu diria que esse governo vai deixar as coisas piores do que encontrou. A comparação de nível, com frequência feita em termos nominais, é rasteira. Mas se você quiser olhar um indicador, só um, seria por exemplo a taxa de crescimento. Eu acho errado, não gosto de fazer isso, mas a taxa de crescimento do segundo mandato de FHC foi maior do que a taxa de crescimento do governo Dilma, e em circunstâncias significativamente piores.

Valor: E em 1999, quando o Sr. assumiu o BC?

Arminio: As expectativas de inflação em 1999 oscilavam muito, entre 20% e 50%, depois da flutuação do câmbio. As expectativas eram de uma queda de 4% do PIB. O ano acabou com a inflação de 9% – ou seja, não se perdeu a âncora – e o crescimento foi positivo, em torno de 0,5%. Essa é uma discussão desenhada para fugir da situação real que a economia brasileira se encontra hoje, que é o 7 x 1 (inflação próxima de 7% e crescimento abaixo de 1%). Uma situação maquiada e com a taxa de investimento muito baixa, de 16,5% do PIB, um novo recorde de baixa. Acho que eles estão tentando fugir do debate.

“O crescimento no segundo mandato FHC foi maior do que o do governo Dilma e em circunstâncias bem piores”

Valor: O governo tem dito que, se Aécio Neves ganhar, vocês vão combater a inflação com arrocho e desemprego. O que o Sr. tem a dizer sobre isso?

Arminio: Primeiro, seria interessante entender o que o governo está tentando fazer, já que eles estão se propondo a ficar mais tempo. A condução da política macroeconômica, especialmente nos últimos três ou quatro anos, foi muito distorcida, esquizofrênica. Enquanto o Banco Central tentava segurar a inflação, o governo expandia a política fiscal e a política creditícia, principalmente de seus próprios bancos, o que acabou gerando essa situação esdrúxula de pouco crescimento e muita inflação. O que está faltando é mais investimento. É possível reequilibrar o tripé e, com isso e várias outras políticas, recuperar a confiança na economia, que está paralisada, e fazer o ajuste de forma virtuosa. Acredito que isso é possível. Foi possível em 1999, como citei.

Valor: A continuação da política em curso nos levaria ao rebaixamento pelas agências de rating?

Arminio: Acho que sim. Não estou dizendo que essa é a minha expectativa. Espero que não seja esse o governo que vai lidar com essa questão. Se for, espero que eles acertem, mas, infelizmente, não há nenhum sinal de que isso vá acontecer. Há uma recusa total de se encarar a realidade e se partir para propostas consistentes. Estão aí há vários anos e a economia só vem piorando. Seria razoável fazer uma autocrítica, ainda que discreta, pois ninguém pode exigir mais do que isso em um ano de eleição, mas pelo menos sinalizar algo pelo bem do país.

Valor: Quais seriam os elementos básicos de uma política econômica progressista?

Arminio: Esse é um tema fascinante e da maior importância. Primeiro, a despeito de vários programas sociais de boa qualidade, tem muita coisas básica que as pessoas deveriam ter e não têm. A qualidade dos serviços públicos no Brasil em geral deixa muito a desejar. Essa é a base, é algo que faz parte de um país que consegue entregar igualdade de oportunidades. Isso é numero um. Temos que continuar com os programas de combate à pobreza extrema, mas é preciso ir muito além. E nisso o governo tem tido muita dificuldade. Depois, há todo esse modelo chamado de “nova matriz macroeconômica” que nada mais é do que uma tentativa de resolver com paliativos situações que são de natureza mais estrutural, fundamental. O governo está subsidiando empresas com volumes imensos de recursos, sem qualquer justificativa social, as desonerações foram feitas sem nenhum critério que se possa identificar e até proteção contra a concorrência externa.

Valor: O que é estrutural?

Arminio: Um pacote desses só existe porque o governo não consegue entregar um custo de capital mais baixo, um sistema tributário mais razoável, que não onere as exportações e os investimentos. O governo não consegue desenvolver a infraestrutura do país, que hoje é um tremendo problema para todos os setores, do agronegócio à indústria. Então ele tenta dar esses subsídios quando o que os empresários querem, na verdade, é um país mais arrumado, com regras mais claras, menos ideológicas e menos corruptas. Dá para imaginar, também, coisas menores, mas de muita importância para reduzir o custo Brasil.

Valor: Por exemplo?

Arminio: A tributação no Brasil é, em geral, bastante regressiva. Isso merece uma revisão completa. Pode-se imaginar as revisões das desonerações, que hoje são tremendamente regressivas. Tem muitas coisas a fazer. O Brasil, apesar de todos os progressos que fez, com o fim da hiperinflação, com o Bolsa Família, continua a ser um país tremendamente desigual. Acho que a base está na qualidade do gasto público, que é onde há espaço muito grande para avançar sem prejuízo dos outros.

Valor: O programa fala em limitar o aumento do gasto público….

Arminio: A proposta é casada com a ideia de que o Brasil tem uma carga tributária alta para um país de renda média como o nosso e que, portanto, isso precisa ser discutido. Mas não é possível discutir o tamanho da carga tributária sem discutir o tamanho do gasto.

Valor: O programa do PSDB garante a manutenção de todos os programas do governo, Pronatec, Bolsa Família, Mais Médicos, e Aécio Neves colocou a revisão do fator previdenciário. Cabe tudo na conta?

Arminio: Não tem porque, em um ambiente populista como esse, listar qualquer sugestão. O governo tende a colocar esse problema como se houvesse um jogo de soma zero. Porque? Porque não estão com o crescimento na cabeça. Já esqueceram que isso é possível. Em uma economia que cresce, você pode resolver isso da forma que estou colocando. Basta controlar a taxa de crescimento do gasto, para que seja inferior ao crescimento do PIB. Outro ponto a respeito desse governo é que não há avaliação de coisa alguma.

Valor: Como assim?

Arminio: Não há transparência e, portanto, não há avaliação. Teve um momento em que o Ministério do Planejamento colocou brevemente no seu site, na gestão do Paulo Bernardo, uma avaliação, mas rapidamente tiraram. Esse país não avalia nada. Essas coisas que estão aí certamente merecem o rótulo de regressivas ou não progressista. Por isso tenho repetido que é fundamental dar transparência, consolidar tudo no orçamento. Você força esse debate que hoje não existe. As pessoas tem a sensação de que tem aqui um dinheirinho barato do BNDES que não precisa ir para o orçamento. Não é verdade. Tudo sai de algum lugar.

Valor: O baixo crescimento não é cíclico, ligado à fraqueza da economia mundial, ao aumento dos juros para baixar a inflação e à queda na confiança provocada pela acirrada disputa eleitoral?

Arminio: Tem um lado que não se pode esquecer. Para os salários continuarem a crescer, para os programas sociais continuarem a crescer, é preciso que a economia cresça.

Valor: Mas e a questão cíclica?

Arminio: Claro que chama a atenção o Brasil crescendo zero e a economia mundial crescendo 3,3%. Mas de fato cabe essa questão: será que é cíclico? Se você olhar a média do crescimento do Brasil com a média da América Latina nos quatro anos do governo Dilma, usando a projeção do Focus para esse ano, o Brasil ficou aproximadamente dois pontos percentuais abaixo. É bom lembrar que a América Latina inclui Argentina, Venezuela, que não estão indo bem. Se você comparar só com os países que estão mais arrumados, Peru, Colômbia, que crescem 4% ou mais, não faz sentido. Eu estava olhando as relações de troca do período Dilma versus o governo FHC. Caiu um pouco ao longo desse período, mas ainda está em um nível alto comparado com a média histórica. Não acho que seja um problema cíclico. Os problemas que existem são auto-impostos e podem ser corrigidos.

“A qualidade dos serviços públicos é número 1; é o que fará o país entregar igualdade de oportunidades”

Valor: O BC diz que o país está em um período de transição, que há uma mudança estrutural com menos consumo e mais investimentos e exportações, aumento da produtividade puxado por mais escolaridade, pelas concessões e desvalorização cambial. Esse ciclo virtuoso vai aparecer em breve?

Arminio: O Banco Central vem falando dessa transformação há bastante tempo e ela não tem aparecido porque tem problemas. Alguns desses temas de fato tem impacto positivo, mas é preciso olhar o agregado quando, ao mesmo tempo, há aspectos que estão indo na outra direção. O número de investimento do último trimestre, 16,5% do PIB, é muito baixo. Essa “nova matriz econômica”, a meu ver, não gera crescimento. Infelizmente foi testada no passado, não deu certo, e cá estamos outra vez. O próprio ministro Mantega, quando assumiu, se não me falha a memória, em uma reunião ministerial – esse documento sumiu do site- falava de um crescimento médio em torno de 5%, indo para 6,5%, nesse governo. O sonho de crescer, todos nós temos. Tem que mudar o modelo.

Valor: Onde a abertura comercial ajuda nesse novo regime?

Arminio: Estamos discutindo a importância de ter o Brasil conectado com as melhores cadeias produtivas do mundo. Queremos um país tão produtivo, tão próspero e tão justo quanto os países mais avançados do mundo. Essa conexão é muito importante. Nossa proposta não é fazê-la da noite para o dia, mas ir aos poucos abrindo, na medida em que se resolvem as questões estruturais. Um ponto que precisa ser mencionado, além disso, é a alocação do capital. Está se politizando o investimento e, com certeza, o país perde.

Valor: O senhor defende uma abertura unilateral do Brasil?

Arminio: Sempre pensamos de maneira multilateral, mas a partir de determinado momento perdemos o bonde. O mundo inteiro começou a fazer acordos regionais, bilaterais, e nós ficamos para trás. Penso que isso foi uma grande desculpa para manter o protecionismo, que certamente não resolveu o problema da nossa indústria. Olha o estado dela hoje.

Valor: O plano do Aécio é levar a inflação para a meta de 4,5% em dois ou três anos. O BC tem um cronograma semelhante. Qual é a diferença em relação ao que já está sendo feito?

Arminio: O BC está falando isso há três anos. Há uma divergência entre o discurso e o realizado. Não nego que o resto do governo dificulta esse trabalho, porque tem uma expansão fiscal ao longo do caminho e expansão de crédito. É muito difícil o BC remar contra essa corrente.

Valor: O BC não tem que se preocupar com o emprego e a renda?

Arminio: Com certeza o BC tem que fazer política anticíclica, mas é consenso de que não se consegue eliminar o ciclo totalmente. Achar que inflação mais alta vai trazer mais bem estar para as pessoas não faz o menor sentido. E, se alguém sabe disso, somos nós no Brasil, que vivemos um período de inflação alta. Não houve no Brasil nada que prestasse a partir desse caminho. Inflação alta sempre foi ruim para o crescimento e para a distribuição da renda.

Valor: Mas o país está com pleno emprego e ganho de renda e talvez seja por isso que a presidente Dilma liderou o primeiro turno das eleições…

Arminio: O fato de o desemprego estar baixo é muito bom. O problema é para onde estamos indo.

Valor: Como rever o tamanho do BNDES, que cresceu à base de endividamento do Tesouro Nacional?

Arminio: Estamos falando de dinheiro subsidiado, e isso é algo que tem que estar disputando com outros itens do orçamento. A sensação de que existe aqui um espaço especial para o gasto é muito ruim para a economia e considero um desrespeito à democracia. Com certeza o BNDES tem um papel importante para cumprir em várias áreas, na infraestrutura, mas isso tem que ser feito com critério, transparência e contabilizando os subsídios. Não tenho dúvida de que isso vai gerar uma transição suave.

Valor: A opção do PSDB é por arrumar a casa de maneira gradual?

Arminio: Tem dois itens macro que devem ser ajustados de forma gradual. Um é o saldo primário, outro é a trajetória da inflação. Porque acredito que com isso será possível nós nos beneficiarmos das melhorias nas expectativas, da confiança em geral. Esse ajuste tem tudo para ser virtuoso, apesar do que dizem por aí. Ponto. O resto, dar transparência, revisar o sistema tributário, repensar nossa política de integração ao mundo, agilizar tudo que tenha a ver com investimentos e infraestrutura, tem que feito com a máxima urgência. Não confunda as coisas. Quando você combina uma resposta macro correta, diminuindo a incerteza, com um lado estrutural, microeconômico, o resultado é bom. Essa agenda micro/estrutural é preciosa e pode ser feita na máxima velocidade possível.

Valor: Haverá uma política de reindustrialização?

Arminio: Eu diria que sim. A indústria está passando momentos extremamente difíceis. E nos acreditamos que o modelo que vai reduzir o custo do capital, tirar a pressão da taxa de câmbio, fazer a reforma tributária e investir muito em infraestrutura vai melhorar a vida da indústria e permitir que aos poucos sejam removidas essas cortisonas que se tem por aí.

Valor: Sempre que se entra na campanha eleitoral, volta o assunto da privatização. Que o candidato do PSDB vai privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil e assim opor diante. Haveria alguma nova privatização?

Arminio: A ideia é de reestatizar o Estado. A leitura do Aécio é que a Petrobras está aparelhada, está capturada, com interesses partidários e privados e que isso tem que acabar.

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